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A palavra do momento (que será talvez a do século se não nos aplicarmos a desejar o contrário) é “medo”, diariamente difundida pelas centrais de propaganda do capital: medo de ficar para trás nesta corrida de ratos e de chegar tarde ou nunca à gamela da sobrevivência, outra palavra do momento. “Progresso” é uma palavra do século XIX, i.e., do tempo da esperança. Hoje vivemos o tempo da intimidação, que por sinal sempre foi o solo ideal para todo o tipo de tiranias. Porque os estrategas da plutocracia reinante sabem que não há como o medo para confundir, dividir e, por conseguinte, enfraquecer a maioria, o povo, esse suposto depositário da soberania política e que hoje se deixa engolir por um conceito onde toda a sua passividade se reflecte: “consumidor”.
Do palco à plateia da história, e da plateia ao palco novamente, no espectáculo da vida política os papéis são rotativos e distribuem-se em função da alternância satisfação/insatisfação que sentimos. Depois de cento e cinquenta anos ao ataque (1789-1938), o trabalho conseguiu estabelecer-se no parco território conquistado ao capital e manter uma trégua de cinquenta anos, chamada social-democracia. Satisfeito, deitou-se a dormir. E o capital aproveitou, claro, para reconquistar parte do terreno perdido. Nos últimos trinta anos, a ofensiva pertenceu de novo ao capital, poderosamente rearmado e reservando para o ensonado trabalho o papel de coro ou de adestrado ponto no palco da história. Mais década menos década, inevitavelmente (a própria voracidade do capital é a melhor garantia dessa reversibilidade), o trabalho farta-se de apanhar no pêlo e volta a arregaçar os dentes, o capital ensaia um recuo estratégico, cede umas praças, volta a distribuir promessas e calorias. O trabalho sorri outra vez, satisfeito e ronronante, para logo cair numa doce sonolência, e por aí fora.
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Com a nova directiva aprovada pelo Supremo Tribunal americano, o longo processo de sequestro da democracia pelo poder económico fica terminado. Agora, nos EUA, as decisões legislativas já podem depender inteiramente de uma espécie de leilão. Queres uma lei que proteja os teus interesses? Pagas. Não tens dinheiro para? Amochas. Já era assim, nos EUA, mas pelo menos ainda havia o decoro de estabelecer limites à compra de políticos pelas big corporations. Agora nem isso. E tudo isto resultante, claro, da ideologia que diz que o que é bom para as empresas é necessariamente bom para os cidadãos. Tem-se visto que sim, e mais se verá ainda.
E assim, cada vez mais, o verdadeiro eleitorado é constituído não pelo povo, mas por quem financia os partidos e as campanhas eleitorais. Ao eleitor resta sancionar ovinamente, de modo meramente formal, a escolha entre o mesmo e o mesmo, entre o candidato do Partido do Capital e o candidato do Partido dos Negócios.
Mas como o povo americano (é certo que devidamente estupidificado pelos chamados “meios de informação”) não parece incomodado com o facto de a política ter deixado de se preocupar com a defesa dos interesses da maioria, com aquilo a que se chamava o interesse colectivo, quem somos nós para nos queixarmos por ele? Se é isto que querem, parabéns e muitas felicidades. (Assholes.)
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Não quer não quer, pronto. Não se fala mais nisso. Era o que faltava, a nação pôr-se agora a contrariar a vontade do sr. Policarpo. Sr. legislador, é favor suspender tudo, que o sr. Policarpo diz que afinal não pode ser. E vocês, gays, pá tenham paciência, ouviram o que disse o sr. Policarpo, não ouviram? Então, andor, vão mas é fazer meninos, se querem ser gente. E depressinha, antes que eles vos policape.
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Se a popularidade do presidente está em queda, e sabendo-se de que é que o povinho americano gosta, não seria boa ideia Obama mandar bombardear um país pobre, magrinho e indefeso, de preferência sem talibãs encarniçados? O Haiti, por exemplo. (Mas, atenção, nunca sem uma prévia campanha de esclarecimento que pusesse a descoberto as secretas conexões entre o vudu e o imperialismo islâmico.) Tenho a certeza que os americanos iriam adorar, e que a taxa de aprovação do presidente subiria rapidamente para os invejáveis 89% do tempo de Bush Filho.
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Nem cínicos nem tontos
o bastante para as guerras
mundiais da mercadânsia,
são simpáticos, os “tugas”,
como todos os inábeis.
Se dão pouco, menos pedem,
desafogam-se em abraços
de convívio quintaleiro,
com o mundo num chinelo
e o chinelo ao pé da porta.
Sem mudanças nem conflitos,
são amáveis com os factos,
obedecem aos pequenos
razoados da renúncia,
não se levam muito a sério.
No lagar da contingência,
reconhecem quase a gosto
a astenia da azeitona,
fazem migas do orgulho,
fazem figas, queimam velas
de tamanho não-te-rales
e que se lixe o candeeiro
do futuro. Malnascidos,
comoventes como ratos
na gaveta da cozinha,
com as patas num trapézio
de suspiros cauteloso,
atilados como filhos
primogénitos da fome,
são apáticos, mas giros:
piedosos quanto baste,
confiantes quando podem,
inocentes como poldros,
pés de salsa ao regadio
da vidina providência.
Faço meus os seus defeitos
(a preguiça, a timidez,
a vocação do remedeio)
e agradeço ter nascido
bem pequeno, com espaço
(quer dizer) para crescer
um pouco mais. Pois
não há pior destino
que nascer acabadinho,
já montado na carroça
triunfante da fiúza,
vendo o mundo p’lo binóculo
invertido do umbigo,
com a alma metralhada
de paixão e cupidez.
(Inédito de Roteiro de Malcontentes, a editar em breve.)
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fundador da AMI. Aqui.
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de um líder como Pedro Passos Coelho, alguém capaz de substituir “uma geração de políticos profissionais cujos currículos se construíram no interior dos aparelhos partidários“, como ele próprio se define no Expresso. Porque P. Coelho, ao contrário de outros que por aí andam, nunca se serviu do partido para subir na vida. Se entrou ainda gaiato para a JSD, foi por imperativos éticos, tal como só o mais puro desejo de se sacrificar pela pátria o levou, sucessivamente, à direcção da JSD, à Comissão Política do mesmo partido, à Assembleia da República, à liderança da bancada parlamentar laranja e à vice-presidência do PSD, altura em que, decerto agoniado com o pantanal da política, decidiu abandonar a ribalta, concluir um curso de Economia e “entrar no mercado de trabalho”, mercado esse no qual os seus prodigiosos méritos depressa lhe valeram a elevação ao cargo, inicialmente, de director financeiro e posteriormente de administrador executivo da empresa Fomentinvest, que por incrível coincidência é liderada pelo barão do PSD Ângelo Correia. Que um homem tão isento e independente, com uma carreira construída totalmente à margem dos favorecimentos partidários, esteja disposto, uma vez mais, a sacrificar a sua vida pessoal e profissional (esta, nunca é de mais repetir, construída inteiramente fora dos circuitos de promoção partidária) para servir ao leme da nação, é algo que só pode merecer o nosso mais sentido reconhecimento. Está de facto na altura de romper com uma geração de políticos-profissionais-cujos-currículos-etc., e feliz é a nação que pode contar com a idoneidade de alguém como Passos Coelho, um paladino capaz de moralizar de vez a vida pública. Aceite desde já o nosso obrigado, dr. Passos Coelho, e que Deus o favoreça!
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Um rápido giro pelos nossos mais categorizados blogues de direita revela a curiosa duplicidade das suas indignações democráticas. Que têm eles a dizer sobre o facto de o régulo angolano aproveitar a euforia futebolística que por lá se vive para suprimir de vez a veleidade de quaisquer eleições directas nos próximos doze anos? O que estes golden-boys da opinião têm a dizer é exactamente o seguinte: nada, nada, nada e nada. Está visto que para estes divertidos politólogos “democracia” é a tradução portuguesa de “business opportunity”.
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Que sentido faz isto, se durante o exercício de Santana o palmarés do Sporting se saldou pela conquista de zero campeonatos, zero taças de Portugal e zero supertaças!?
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“Eu definiria a globalização como a liberdade para o meu grupo de investir onde quiser, durante o tempo que quiser, para produzir o que quiser, abastacendo-se e vendendo onde quiser, e tendo de suportar o menor número possível de constrangimentos em matéria de direito de trabalho e de acordos sociais”
Percy Barnevik, ex-CEO de tudo e mais alguma coisa, entretanto reconvertido, ao que parece, em filantropo…
In Jean Ziegler, Os Novos Senhores do Mundo, Terramar, mais uma obra fundamental para a compreensão do mundo criado nos últimos vinte anos, com a desregulação dos mercados e a liberalização financeira, um mundo no qual, segundo Habermas, citado na mesma obra, “a evicção da política pelo mercado traduz-se pelo facto de o Estado nacional perder progressivamente a capacidade de arrecadar impostos, de estimular o crescimento e de assegurar através destas medidas as bases essenciais da sua legitimidade; ora, essa perda não é compensada por nenhum equivalente funcional [...] Confrontados com o risco permanente de verem fugir os capitais, os governos nacionais lançam-se numa correria louca para a desregulação através do abaixamento dos custos, de onde resultam lucros obscenos e desníveis inacreditáveis entre salários, o aumento do desemprego e a marginalização social de uma população pobre cada vez maior. À medida que as condições sociais de uma larga participação política são destruídas, as decisões democráticas, mesmo adoptadas de forma formalmente correcta, perdem credibilidade.”
Nestas condições, tornam-se comicamente trágicas as queixas dos excluídos económicos (dos desempregados aos precarizados), quando acusam o governo Sócrates pela falência das empresas e do mundo do trabalho. Infelizmente, já nem os nossos governos podemos culpabilizar, ou somente na medida em que assinaram alegre e irresponsavelmente os acordos e tratados internacionais que os deixaram (e a nós ainda mais) de mãos atadas.
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Diz-se que uma delegação de cordeiros, certo dia, já farta de desfeitas, humilhações e agravos da parte dos lobos, juntou tostões e pediu a Nicolau Maquiavel um parecer técnico.
– Senhor, perguntaram, dizeis que a liberdade dos cordeiros não existe, posto que existem os lobos. Mas temos andado a pensar no seguinte: se conseguíssemos expulsar os lobos da cidade, não poderia entre os cordeiros florescer a liberdade?
– Inocentes criaturas, respondeu Maquiavel, como poderíeis algum dia garantir a expulsão dos lobos todos? Impossível. Desde logo, porque ninguém sabe dizer onde começa o lobo e acaba o cordeiro; além disso, por muitas expulsões que decretásseis (com que força, é outra história), a presença de um único lobo bastaria para vos roubar a liberdade.
– Mas reparai, senhor, que a liberdade do mais forte se resume ao império de poucos sobre muitos. E se a liberdade é melhor do que a servidão, como dizem os filósofos, o ideal seria torná-la tão extensa quanto possível.
– Ideal seria, como dizeis. Mas ideal, por definição, é aquilo que não existe, nunca existiu nem, provavelmente, existirá. Se expulsáreis os mais fortes, os menos fracos de entre os mais fracos seriam ainda os mais fortes, e lupinamente se ergueriam para vos devolver ao rebanho da dependência.
– Que vos garante, senhor, tal certeza?
– Os exemplos da história, e a natureza dos lobos e dos cordeiros.
– Nós, porém, queremos acreditar que a história não é algo de dado, mas de construído, senhor. E se vós próprios dizeis que é impossível predizer onde em nós começa o lobo e acaba o cordeiro, isso significa que a nossa natureza não está determinada, e se não está determinada é porque pode mudar.
– Nada disso. A história está determinada pelo egoísmo e pela desigualdade naturais. Não há lobos fortes sem cordeiros fracos, concedo, mas um cordeiro forte é já um lobo, tal como um lobo fraco não passa de um cordeiro.
– Quer dizer que só pela força poderemos, senhor, conquistar o direito de ser fracos? Que se não queremos ser lobos, só nos resta vestir-lhes a pele?
– Não. É pior do que isso, cordeirinhos. Significa que só como lobos poderíeis ser livres, e que a expressão “conquistar o direito de ser fraco” é uma contradição, designa uma impossibilidade.
– Não existe, portanto, liberdade na fraqueza?
– Não, não existe. Enquanto ovinos, estais condenados à servidão.
– Que nos aconselhais então, nestas circunstâncias?
– Quatrocentas flexões de braços por dia.
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