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Questionário publicado no suplemento “das Artes das Letras” de O Primeiro de Janeiro em 2 de Agosto de 2004. Perguntas de Filipa Leal, respostas de JMS

– Prefere perguntar ou responder?
Perguntar.
– Qual é a sua maior curiosidade em relação aos outros?
Se serão tão estúpidos como eu.
– E a sua maior curiosidade em relação a si próprio?
Se algum dia deixarei de ser estúpido.
– Que questão detestaria que lhe colocasse?
Esta mesma.
– De que é que tem medo?
Do futuro. Por exemplo.
– Acredita em Deus?
Deus é um sonho de crianças com medo do escuro. Pessoalmente, prefiro não sonhar. E ao escuro já me habituei.
– E no Diabo?
Piamente. O Diabo é o senhor das coisas, a personificação do movimento, ou seja, do mal. É o combustível que põe em circulação a máquina do mundo. Mais real do que o Diabo é impossível.
– Acredita em si?
Sempre que me vejo ao espelho.
– E na sua Musa?
A minha Musa é o meu espelho.
– Acredita em Mestres?
Claro que sim. Essencial na formação de um escritor é saber escolher os seus mestres. É quase tão importante como o talento. Ou a tenacidade.
– O que é o amor?
Uma necessidade, uma fraqueza, uma coisa rara, uma ventura, um estado de sítio, um quartel de inverno, uma prova de fundo. É a melhor solidão.
– Guarda muitos segredos?
Todos.
– Pode contar-nos algum?
Nietzsche é meu bisavô.
– O que é a verdade?
É uma luz fria, que não aquece nem ilumina. Que apenas dá sinal de presença.
– Tudo o que escreve é verdade?
Não, mas é tudo verosímil.
– De que é que devemos libertar-nos?
Do egoísmo, da boçalidade, da preguiça, da superstição.
– De que maneira?
Com poesia, banhos frios e amor.
– Quando é que começou a escrever poesia?
Em 1988.
– Para quê?
Para me queixar com estilo. Para me conhecer melhor, e aos outros. Para aprender a ver no escuro. Para poder morrer pobre mas galante. Para emular os mestres. Para pôr Oliveira do Douro no mapa da literatura portuguesa.
– Escreve todos os dias?
Para quê?
– “Morre-se de não ter dito a palavra”?
Não. Morre-se de fome, de acidente de viação, de doença, de desamor.
– Pode-se morrer de amor?
Pode-se morrer de quase tudo, excepto de “não ter dito a palavra.”
– Morreria se não pudesse escrever poesia?
Nem eu, nem ninguém. E é preciso ser-se um farsante ou um snobe, como Rilke, para insinuar o contrário.
– Qual é o grande mistério da vida?
Se as ovelhas gostam de ser tosquiadas. E porquê.
– Costuma pensar na morte?
Na minha, nem por isso.
– O que é o abismo?
É um coração às moscas.
– A desordem agrada-lhe?
Em termos pessoais, um mínimo de desordem é inevitável. E não me desagrada. Desde que mantida sob controle.
– O que é que procura?
Não desiludir os meus amigos. Chegar ao fim do dia com as mãos sujas e o coração limpo. Não ter que me envergonhar dos meus actos.
– Sente-se parte de uma determinada geração de poetas?
Sinto-me parte de uma geração de portugueses, os que nasceram uns anitos antes do 25 de Abril. Alguns desses portugueses escrevem versos. E, dentre os que escrevem versos, há quatro ou cinco de quem gosto muito. Somos da mesma geração porque acidentes de natalidade nos puseram a nascer num curto intervalo de tempo. E essa coincidência etária parece-me inescapável.
– Como é que define o seu tempo?
É o tempo ideal para fazer negócios, para sofrer negócios. Tudo depende do que se tem calçado ou do relógio que se traz no pulso. Pela parte que me toca, está bom para fugir.
– Procura escrever dentro da contemporaneidade?
Não é que procure, acontece que não tenho alternativa.
– O que é um “poeta sem qualidades”?
É um poeta que não serve para nada. Que não traz o bom tempo, que não dá esperança aos doentes, que não contribui para aligeirar o déficit na balança cultural. Digo eu. Mas o melhor seria perguntar ao meu amigo Manuel de Freitas, que foi quem formulou o conceito.
– José Miguel Silva é um “poeta sem qualidades”?
Se o Manuel de Freitas pensa que sim, é porque sou, pois ele tem sempre razão.
– O que é um poeta com qualidades?
É uma cabeça coroada de louros, com duas asinhas nas orelhas. Ou outra coisa qualquer.
– Quais são as qualidades que deve ter um poeta contemporâneo?
As qualidades que sempre se exigiram aos vates: deve fazer versos sorridentes, deleitosos, daqueles que ficam bem em qualquer sala e atiçam o aplauso das damas. Deve ter opiniões políticas responsáveis e saber usar todos os talheres à sua disposição. Reconhecer com agilidade o momento certo para falar e o momento certo para engolir em seco. E, acima de tudo, ser simpático, brindar com os demais. Não ser um desmancha-prazeres.
– Qual é o primeiro verso que lhe ocorre?
“Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!/ No chão sumir-se, como faz um verme.” (Pessanha)
– Que opinião tem de Luís de Camões?
É o pai da pátria.
– E de Saddam Hussein?
É um homem normal, um acumulador de energia destrutiva, ou seja, de poder. Um concentrado de ambição em forma de vazio. Um rapaz, enfim, que se perdeu, como tantos outros.
– E da Cinderela?
É a mulher de Saddam Hussein, ou do senhor que se segue. É uma praça forte, a razão de todas as guerras.
– E de Pedro Santana Lopes?
Um papa-jantares.
– E do jornalismo?
His master’s voice. Excepto quando lhe deixam ser outra coisa, o que raramente sucede.

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