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Archive for Março, 2009

Bairros e periferias das grandes cidades atraem “pessoas determinadas à prática de crimes”, diz Mário Mendes .

 Público

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imprisonment

trust

social-mobility

Estudo aqui, encontrado via Ladrões de Bicicletas.

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Santa Colt

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“Por mim, clonava-se já o Cavaco Silva ” : 0 pp.

“Quando for grande quero ser como o Noddy” : o pp.

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“Assim não vamos lá” : 3 600 pp.

“Está no papo” : 1 530 pp.

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“Adoro trabalhar” :  2 990 pp.

“Detesto trabalhar”: 167  pp.

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Spot 1. O Rui está preso no trânsito. Morreu um Grande Futebolista Nacional. Funeral que nunca mais acaba. 

– Ó Eduarda, que porcaria é esta? 

–  É o funeral do Grande Futebolista Nacional.

– Grande Futebolista Nacional, mas quem é esse gajo?

– É alguém que não gosta de si, Rui, nem dos trabalhadores-modelo-automobilizados.

Spot 2:  Desfile de pais-natal no Porto. Ruas cortadas. Rui desesperado.

– Ó Eduarda, donde saíram estes azeiteiros todos?

– Talvez da cabeça do seu homónimo Rio, Rui.  Diz que é uma manifestação cultural.

– Ai sim? Manifestação contra quê?

– Contra si, obviamente, e contra o seu direito de locomoção rodoviária. 

 Spot 3: Procissão do dia da Ascensão da Nossa Senhora Ao Céu.  Ruas entupidas.

– Ó Eduarda, estou aqui encalhado há 45 minutos. Que se passa?

– Uma procissão, Rui. Dos devotos da Nossa Senhora ao Céu. 

– Nossa Senhora Ao Céu, mas quem é essa?

– É outra que não gosta de si, Rui, nem das pessoas que insistem em cumprir cívica e conscientemente o plano estratégico de fomento da actividade económica nacional, sabiamente delineado pelo nosso ministro da economia.

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Mortos vivos # 3

Young mother and son, Gunlock, Utah - Dorothea Lange

Young mother and son, Gunlock, Utah - Dorothea Lange

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Óbidos

Óbidos

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Viseu

Viseu

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CORREIO AZUL

  

Caro amigo, fazes bem em desertar

desta guerra de postiços ideais,

onde o trigo é disputado por moinhos

desleais. De que vale o esconjuro

de um esgar, face ao íntimo perigo

que este curso de poeira representa?

É melhor guardar distância desses fumos,

sob o risco de perder um património

de perguntas inquietas, de deslumbres,

no contágio com a lepra dos canalhas.

 

Prometeram-nos os livros cedo lidos

um jardim de solitários reunidos

sob a força de palavras acendidas;

um lugar além do mundo, onde as farpas,

as escarpas, os gorazes, os algozes,

não teriam padroeiro nem mercado

pra vender o vasilhame de batidos

elixires, cujo gás lhes alivia

não sabemos que negócios intestinos.

 

Custa muito, no final, abrir os olhos

face ao foco da verdade: este charco

dos letrados não difere do paul

onde Dédalos estudam, mandatários

do betão, dos piratas mais felizes.

Uma furna de lacraus, onde tudo

se resume à traficância

de postais de boa-morte, à gerência

dos gemidos, a galantes vernissages

e bebidos mecenatos, ao pecado

de servir a mais senhores.

 

É ver quem mais se move a reunir

sua tropa de palavras mercenárias,

à conquista de colinas de dejectos

em Paris e Nova Iorque levantadas,

em Atenas, em Uruk, Jericó,

em qualquer sub-instituto de lusófonos

pagodes. Tudo serve, quando serve

sua glória de esculpir em pó de giz.

 

Não há tule para tanta fantasia.

Dramatontos, remancistas, poetantos

que não custa quase nada perceber

porque varam as revistas, os secretos

corredores do ministério, ou se jogam

por atalhos de cartão e cortesia

para o céu das editoras e colóquios

outdoors, para grémios e prebendas,

embaixadas, galardões de prime-time,

golden card e viajados, reputados,

deputados e, por fim, sepultados

em unives, de Aberdeen a Zanzibar,

pelos cúmplices de sempre.

 

Fazes bem em exilar-te, pois o cheiro

que se ouve, neste cais de filistinos,

só convida a desistir. Estás a salvo,

pelo menos, da peçonha dos olhares,

dos abraços inimigos, do aplauso

rebuçado, desta vida que nos mente.

 

Vê se guardas um lugar para este

teu amigo, que te abraça, a caminho.

 

 (Dezembro de 2000)

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         “Aqui não vais encontrar gente comum. Não depois de escurecer, por estas ruas, sob os beirais dos velhos armazéns. Sabes isso, claro. A ideia é essa. É por isso que aqui estás. Rajadas de vento vindas do rio agitam a poeira de edifícios em demolição. Junto ao paredão, vagabundos acendem fogueiras em bidões enferrujados. Podes vê-los agrupados, envoltos em toda a sorte de roupa resgatada ao lixo, casaca, camisolas ou qualquer combinação de ambas. Há camiões estacionados junto aos armazéns, alguns deles ocupados, homens que fumam na sombra, à espera que os homossexuais saiam dos bares em redor de Canal Street. Estugas o passo, embora não para escapar ao frio. Gostas deste vento cortante. Dobras uma esquina e mergulhas brevemente nele, sentindo as tuas coxas agradavelmente modeladas sob o tecido esticado. Estilhaços de vidro brilham como mica branca nos lotes vagos. O rio tem um odor a almíscar esta noite.

          Virando agora para leste, deparas com quatro letras pintadas a tinta branca no flanco de um edifício. Garatujas de mestiço. ANGW. Mas que te são familiares, de algum modo, como se abrissem um buraco no tempo e te fizessem retroceder mais de vinte anos. A visita a Salzburgo. Os primos, os jogos, o museu. Quatro letras gravadas numa alabarda de cerimónia. A explicação do teu pai: Alles nach Gottes Willen.

          Desde então, as armas tornaram-se ateístas. As armas já não são religiosas. E as crianças cresceram, descobrindo haverem percorrido curiosas distâncias. Sentes que está agora iminente, mais uma esquina, está ali alguém, um regateio silencioso que nada tem a ver com mercadorias ou sequer serviços, apenas com aquilo que verdadeiramente somos, almas que navegam noite fora, cada uma aceitando os termos das demais. Uma obscura euforia cresce a cada passo que dás.

          Tudo segundo a vontade de Deus. O Deus do Corpo. O Deus do Batom e da Seda. O Deus do Náilon, do Perfume e da Sombra.”

          Don Delillo, Running Dog

 

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Nunca tinha lido sequer uma linha de Doris Lessing, de quem sabia apenas que sofrera recentemente um prémio Nobel, coitada. Mas quem é viciado em biografias (mesmo auto-) não recua perante nada. Sem ser um deslumbramento que me ponha a encomendar à tola os restantes livros dela, Walking in the Shade, 2º volume da sua autobiografia, é uma obra de leitura agradável e um relato aparentemente honesto da sua vida entre os 30 e os 40 anos, em que passa de escritora anónima a pequena (ainda) celebridade e de comunista a trânsfuga do comunismo. Pelo meio, Lessing descreve o meio social e cultural em que se movia na Londres da década de 50, assim como a sua peculiar “paisagem mental”, as suas actividades como activista política e o progressivo desencanto com a URSS (e algumas das melhores páginas do livro são aquelas em que narra a sua visita a esse “paraíso” infernal, em 1952), para além dos seus combates literários e de algumas circunspectas incursões no território da sua vida sentimental.

Como quase sempre ocorre neste tipo de narrações biográficas, o mais interessante são os retratos de gente que viu e conheceu, gente célebre, semi-célebre, ex-célebre ou anónima: o jovem e lustroso pastor-alemão Henry Kissinger, J. Osborne, Bertrand Russell, etc., ou a família, os amigos e vizinhos (entre os quais, a Mulher Mais Azarada do Mundo), os editores, os compagnons de route, etc.

No conjunto, a obra dá-nos a imagem de Lessing como uma mulher moralmente equilibrada, intelectualmente honesta e independente. Ficamos, claro, sem saber se também tinha defeitos, se batia no filho ou nos gatos, se deitava sal no jardim do vizinho, se pagava subornos à polícia literária. Mas já se sabe que a honestidade tem limites e não foi para exercícios de auto-crucificação que se inventou o género autobiográfico (mesmo Agostinho, que era santo, não confessa mais do que roubas de pêras, más companhias e pecadilhos do género). E se o Índice de Humor por Página fica, neste livro, muito abaixo do que seria de esperar de um autor inglês, por outro lado não faltam observações judiciosas e de muito proveito. Exemplos:

“We all of us have limited amounts of energy, and I am sure the people who are sucessfull have learned, either by instinct ou consciously, to use their energies well instead of spilling them about”

“The safeguard against tyranny, now, as it always has been, is to sharpen individuality, to strenghten individual responsability, and not to delegate it”

“What the good of knowing something if that doesn’t affect how you behave?”

A única passagem do livro que se lê (eu pelo menos leio) num trolaró de tábem-tábem é aquela em que Lessing nos fala (muito de raspão, felizmente) dos esplendores da vida mística contra o grisalho materialismo filosófico, depois de ter trocado a ilusão comunista pela ilusão sufista e pelo ioga. Surpreende que uma mulher aparentemente inteligente como Lessing não perceba como é ridiculamente contraditório para um escritor (por definição, um monstro de volição a de auto-afirmação) vir louvar o apagamento do eu à maneira budista. Toda a gente sabe que individualismo e budismo se excluem mutuamente. Um sufista, um budista, um taoista, etc., coerentes não escrevem romances, não projectam a mentira de um nome no firmamento mediático, não recolhem prémios literários, não assinam livros nem contratos de publicação. Apagam-se na sombra de um mosteiro ou eremitério e ficam à espera, de boca calada, que os atinja o raio da iluminação. Todas essas filosofias orientais são excelentes e muito poéticas, sem dúvida, mas para a terceira idade, quando ao lobo já os dentes caem e o pêlo perde a cor. Até posso conceder que renunciar é bonito, mas desde que não se limite a uma pose de sossega-espírito. O mais corrente e sensato, porém, é renunciar-se, sim, mas quando já não se pode, como aqueles tubarões da finança nipónica que aos sessenta abandonam os negócios, rapam a cabeça e vão contar flores de ameixoeira para o monte Fuji.

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Auto-retrato, c. 1635

Auto-retrato, c. 1635

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