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Archive for Maio, 2009

Se quer saber porque é que neoliberalismo e democracia são realidades antagónicas, e porque é que a libertação (isto é, desregulamentação radical) dos mercados tem significado, em toda a parte, escravidão e dependência, enriquecimento súbito para uns poucos e estagnação ou empobrecimento para os restantes;

se quer saber como as reformas neoliberais têm sido impostas aos países (contra a vontade dos cidadãos) pela força das armas (Chile, Rússia, Iraque, etc.), pela pressão do FMI e do Banco Mundial a países endividados (Argentina, Bolívia, Polónia, etc.), ou aproveitando a desorientação política e social provocado por catástrofes naturais (tsunami no sudoeste asiático, furacão Katrina, etc);

se quer saber como a ideologia neoliberal defende não menos estado, como apregoam os seus esbirros, mas sim um estado ao serviço das empresas e seus lucros, ou, como disse Gore Vidal, “socialismo para os ricos, livre concorrência para os pobres”;

se quer saber como em todo o lado o resultado das politicas económicas neoliberais foi o desemprego em massa, o alargamento do fosso entre os mais ricos e os mais pobres, o empobrecimento ou quase extinção da classe média, o desmantelamento dos sistemas de protecção social, a insegurança ou exclusão económica de uma percentagem significativa da população;

se quer saber como a precariedade económica leva à insegurança civil, e como a sensação de insegurança generalizada se tornou altamente estimulante para o ramo mais florescente da economia actual: a indústria da guerra, da segurança, da vigilância e do encarceramento;

se quer saber tudo isto e muito mais, o livro recomendado é The Shock Doctrine, de Naomi Klein.

Neoliberais em acção, Abu Ghraib, Iraque

Neoliberais em acção, Abu Ghraib, Iraque

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Mais sobre The Shock Doctrine, o livro de que NÂO se fala (em Portugal)

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First, governments must remove all rules and regulations standing in the way of the accumulation of profits. Second, they should sell off any assets they own that corporations could be running at a profit. And third, they should dramatically cut back funding of social programs. Within the three-part formula of deregulation, privatization and cutbacks, [Milton] Friedman had plenty of specifics. Taxes, when they must exist, should be low, and rich and poor should be taxed at the same flat rate. Corporations should be free to sell their products anywhere in the world, and governments should make no effort to protect local industries or local ownership. All prices, including prices of labor, should be determined by the market. There should be no minimum wage. For privatization, Friedman offered up health care, post office, the post office, education, retirement pensions, even national parks. In short, and quite unabashedly, he was calling for the breaking of the New Deal, that uneasy truce between the state, corporations and labor that had prevented popular revolt after the Great Depression. Whatever protections workers had managed to win, whatever services the state now provided to soften the edges of the market, the Chicago School counterrevolution wanted them back.

Abu Ghraib

Abu Ghraib

And it wanted more than that : it wanted to expropriate what workers and governements had built during those decades of frenetic public works. The assets that Friedman urged the government to sell were the end products of the years of investment of public money and know-how that has built them and made them valuable. As far as Friedman was concerned, all this shared wealth should be tranferred into private hands, on principle.

Though always cloaked in the language of math or science, Friedman’s vision coincided precisely with the interests of large multinationals, which by nature hunger for vast unregulated markets. In the first stage of capitalist expansion, that kind of ravenous growth was provided by colonialism- by “discovering” new territories and grabbing land without paying for it, then extracting riches without compensating local populations. Friedman’s war on the “welfare state” and “big government” held out the promise of a new font of riches – only this time, rather than conquering new territory, the state itself would be the new frontier, its public services and assets auctioned off for far less than they were worth.

Naomi Klein, The Shock Doctrine

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Há o insuportável fedor a best-seller & novidade, cada vez mais pungente e dominante; há os preços, de meter medo a um accionista da Galp; há o imprestável sorriso dos “colaboradores”; e só por milagre ainda não há a arrepiante batida tecno-grunho das lojas para jovens. Mais enervante, porém, do que tudo isso, é o badalar da cabeça – esquerda-direita – a que as caprichosas lombadas dos livros portugueses nos obrigam, quando alinhados em estante, e que segundo a Organização Mundial de Saúde são responsáveis por 2664839503240053 torcicolos por ano no nosso país. Seria exigir muito aos nossos editores que chegassem a um consenso sobre a orientação dos títulos nas $%#&#>&$% das lombadas, para que uma pessoa não seja obrigada a fazer figura de títere desconjuntado ao percorrer as estantes? Ou o objectivo será precisamente afastar das livrarias os leitores para que restem apenas os consumidores de best-seller-de-mesa-expositora? Pela Nossa Sra. da Carochinha, pelos Nossos Fundos Comunitários, não haverá em Bruxelas quem acuda com uma encíclica, uma bula, uma directiva que incuta algum bom-senso nos nossos tipógrafos? Como é que se pode aspirar a um país organizado, se nem um princípio de ordenação tão básico e evidente conseguimos acordar?

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A semana abre da melhor maneira para os católicos. Deus, afinal, é um marotão e quer ver toda a gente sexualmente feliz. Ao contrário do que os seus franchisers na terra andam a apregoar há quase dois mil anos, Deus acha entediante a posição do missionário e o seu maior desejo é que um coro de gemidos e rangidos se eleve todas as noites dos católicos leitos para o céu, com “fantasia incluída” (por exemplo: ela vestida de freira e ele de ginástico satanás) e  “posições atraentes” , não recuando sequer perante a “estimulação oral e manual”. Contraceptivos é que não, nem truca-truca dentro do mesmo sexo. Alegria na cama, está bem, mas sem esquecer que o objectivo continua a ser fazer católicos: uma barrigada por cada pinocada, eis o ideal. 

Católicas celebram a nova posição de Deus

Católicas celebram a nova posição de Deus

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Ali Farka Touré

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Tesouro divino

A juventude passou.
Bem está o que acabou.
Não voltaria a ser jovem
nem que mo pagassem.

Pôr-me a andar de novo
pelo caminho trilhado
dos sonhos ilusórios
e das vagas verdades?

Começar outra vez
as velhas batalhas
e as suas velhas feridas?
Voltar às caminhadas

pela noite, pelo inferno,
ao gosto pela má
vida? Fazer de tudo,
que é comédia, um drama?

Voltar a alimentar-me
de mitos e falácias,
de modas e frenesim,
de palavras gastas?

Carregar aos ombros
a fastidiosa carga
de ser interessante,
original?… Que disparate!

Confiar, como ontem,
na vã esperança
de que tudo será
melhor amanhã?

Ter toda a vida
pela frente – tão longa -,
e o que já passou
não ser nem metade?

A juventude foi-se.
Fica bem o que acaba.
Não voltarei a ser jovem,
graças a Deus.

Traduzido por LP, deste blogue

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“O meu tio Daniel é como o seu, se tem algum – só que o meu tem uma fraqueza. Adora conviver e perde o sentido das coisas. Se ele nos ouvisse agora, descia já por aquelas escadas, estivesse ou não o jantar pronto. Mal avista alguém aqui sentado, no átrio do Beulah, o tio Daniel senta-se na outra ponta do sofá e mete conversa com a pessoa, e o mais provável é que daí a nada já lhe esteja a dar um abraço e a tentar oferecer-lhe alguma coisa. E pouco lhe adianta mostrar-se acanhado. Ele não aceita recusas. Pode é acontecer que ele se esqueça do que lhe ofereceu hoje e volte a oferecer-lho amanhã. É o homem mais amável do mundo. Está a ver aquele chapéu enorme no bengaleiro, o cinzento? É o dele. Repare bem no tamanho da cabeça. A quantidade de coisas que o meu tio Daniel ofereceu ao longo da vida, sem que lhas tivessem pedido… Assim de repente, sou capaz de me lembrar de uma fiada de presuntos, um belo fato de fazenda, um vitelo branco, duas viagens para Memphis, um casal de pombos, um bonito pónei Shetland (adora crianças), uma chocadeira e uma incubadora, uma cabrita, um bode, uma cisterna em madeira de cipreste, um campo de trevo branco, duas rodas de ferro e algumas galinhas poedeiras (estavam juntas), pastagens para o gado durante a seca (ele tem minas que nunca secam), um sem-fim de ovos frescos, uma carrinha de caixa aberta – até o seu lote no cemitério, só que a pessoa não aceitou. E já não estou a contar com esta semana. Não há ninguém mais popular na cidade.”

Eudora Welty, The Ponder Heart

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