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Archive for Outubro, 2009

The Go-Betweens

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A GALINHA

 

A galinha é o melhor exemplo daquilo que acontece a quem vive

sempre ao pé dos homens. Perdeu completamente a graça e a leveza

das aves. Tem a cauda espetada por cima do dorso saliente como

um chapéu demasiado grande e de mau gosto. Os seus raros momentos

de êxtase, quando se apoia numa só pata e revira os olhos redondos

e de pálpebras foscas são de um grotesco espantoso. A juntar a isso,

uma paródia de canto, essa esganiçada súplica por cima dessa coisa

indizivelmente cómica: um branco, imundo e redondo ovo.

 

A galinha faz pensar em certos poetas.

 

(Versão, do inglês, de JMS)

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“Quando as mães solteiras pobres tinham a opção de não entrarem no mercado de trabalho e continuarem a subsistir à custa da assistência social, as classes média e alta encaravam-nas geralmente com uma certa impaciência, se não mesmo repugnância. Os pobres dependentes da assistência social eram criticados pela sua preguiça, a sua persistência em se reproduzirem em circunstâncias desfavoráveis, os seus presumíveis vícios e, acima de tudo, a sua “dependência”. Aqui estavam eles, contentando-se com viver de “esmolas do Estado” em vez de buscarem a sua “auto-suficiência”, como todas as outras pessoas, através de um emprego. […] Mas agora que o Estado suspendeu em grande medida as suas “esmolas”, agora que a esmagadora maioria dos pobres labuta no Wal-Mart ou no Wendy’s – bem, agora o que havemos de pensar deles? A reprovação e a condescendência já não têm cabimento; qual é a forma de os encarar que faz sentido?

Com um sentimento de culpa, estareis talvez a pensar com desânimo. Mas a culpa não chega, de forma nenhuma; o sentimento apropriado é a vergonha – vergonha da nossa própria dependência, neste caso, dependência do trabalho mal pago de outros. Quando alguém trabalha por menos dinheiro do que necessita para viver – quando, por exemplo, passa fome para que nós possamos comer de forma económica e conveniente – então essa pessoa faz um enorme sacrifício por nós, concedeu-nos a dádiva de uma parte das suas capacidades, da sua saúde e da sua vida. Os “pobres que trabalham”, como são referidos de forma apreciativa, são de facto os principais filantropos da nossa sociedade. Negligenciam os seus próprios filhos para cuidarem dos filhos dos outros; vivem em casas sem condições para que as casas dos outros sejam reluzentes e perfeitas; aguentam privações para que a inflação continue baixa e os preços das acções subam. Pertencer ao grupo dos pobres que trabalham é ser um doador anónimo, um benfeitor não identificado de todas as outras pessoas. […]

Um dia, evidentemente – e não vou fazer aqui previsões sobre a data exacta – cansar-se-ão de obter tão pouco em troca e exigirão que lhes paguem o que merecem. Quando esse dia chegar haverá muita raiva e greves e perturbações. Mas o céu não cairá, e no fim de contas todos acabaremos por beneficiar.”

Barbara Ehrenreich, Salário de Pobreza, Ed. Caminho

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Virginia Norris Adolph

adolfVirginia Norris Adolph

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– Estamos aqui no Aviário Vida Fácil para entrevistar alguns trabalhadores avícolas. Dona Galinha Poedeira, boa tarde, uma palavrinha para a Tele-Radical…

– Ai eu agora estou a trabalhar.

– Compreendo. Diga-me só o que pensa das suas condições de produção. Acha que a entidade patronal tinha obrigação de lhe dar melhores condições laborais?

– Oh, coitados. Já muito fazem eles. Não, acho que não me posso queixar.

– Não se sente um pouco apertada? Reparo que quase não se consegue mexer nessa gaiola.

– Não. Está-se bem. Eu também não gosto muito de me mexer porque o movimento faz correntes de ar e eu sou muito friorenta.

– Mas essa gaiola…

– Diz aqui que é certificada pela UE e está conforme com todas as disposições do código laboral.

– Diga-me, quantos ovos põe por semana?

– Ah, não faço ideia.

– Sabe contar? Qual é a sua escolaridade?

– Olhe, eu agora não posso falar.

chicken-farm

– Muito bem. Obrigado. Bom, passemos então para este lado. Boa tarde, Sr. Frango. Um pergunta, por favor, para a Tele-Radical. Acha justo ser criado para alimentar seres humanos?

– Homessa! Eu não sou criado para isso. Era o que faltava! Agora, se depois de morto sou comido ou enterrado no quintal – quero lá saber!

– Sabe-me dizer qual é a sua esperança de vida, Sr. Frango?

– Claro que sei. Cinquenta dias.

– E nunca se perguntou porquê cinquenta e não três mil e cinquenta?

– Três mil e cinquenta, bem, bem! Mas você é jornalista e não sabe que a vida de um frango são cinquenta dias?

– Não tinham de ser cinquenta, Sr. Frango. Podiam ser setenta vezes mais. Se são cinquenta é porque a entidade patronal considera que aos cinquenta a engorda está feita e é inútil gastar mais milho convosco

– Ora essa! Mas você pensa que eu sou parvo ou quê? Está a gozar comigo, é?

– Mas é verdade, Sr. Frango. Todos os zoólogos afirmam que, naturalmente, um frango pode viver entre oito e doze anos.

– Não me venha cá com essa treta dos zoólogos, que isso para mim são histórias da carochinha e eu não tenho tempo para fantochadas.

– Desculpe que lhe diga, Sr. Frango, mas só não tem tempo porque não quer. Repare que –

– Ouça lá, meu cientista dum corno, você veio aqui para me moer o juízo, foi? Não percebe que estou a trabalhar e não tenho tempo para conversas de chacha?

– Tem razão, Sr. Frango. Desculpe.

– É cada parvalhão!

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RAÍZES

Sete gerações aqui passaram entretanto,
cumprindo a sua parte do acordo.
Filhos que não impediram a morte de seus pais,
prognósticos inscritos na velha ordem ritual.

Presos às raízes do passado, a nossa curiosidade
é omnívora: queremos saber tudo, conhecer
a composição da superfície, encontrar enfim
um ponto de equilíbrio. Mas a vida real

voltou, vem agora atrás de nós. Ouço-te respirar
do outro lado da linha. Apenas uma curta pausa
entre palavras. No Castelo os ciprestes
aproveitam, envelhecem na mesma direcção.

Mar Largo, & etc.

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mas porque a verdade é bonita e até numa sala de tribunal se deve dizer, serve o presente post para refutar os delírios de um jornalista brasileiro, que aqui dá largas à sua torpe imaginação tropical sobre mim.

Eu nunca me encontrei com nenhum jornalista brasileiro em café nenhum de Portugal, sendo por isso um exagero a sua afirmação de que “nos encontrámos várias vezes” no “Café do Cais” (?), Porto.  Diz o cronista que fuma cachimbo, e não me custa imaginar que substâncias alucinogéneas entrarão na sua dieta de fumador, pelo menos a avaliar pelo teor dos seus desvarios. Não, nunca vivi em Lisboa, não é verdade (infelizmente) que viaje muito, e só por confusão com os seus próprios gostos é que o jornalista poderá ter dito que eu “aprecio Rubem Fonseca, Gullar, Sebastião Nunes”, que nunca li e que para mim tanto podem ser escritores como futebolistas do Fluminense. Lamento ainda que ele me dê como bebedor de cerveja, que além de não coincidir com a verdade pouco contribui para me prestigiar o gosto (custava muito, cara, ter-me inventado uma inclinação para o conhaque, ou para o Campari?), mas dou graças a Deus por não me ter pintado de laçarote à B. Bastos, piercing na pálpebra esquerda, Mallarmé tatuado no antebraço e cachimbo idêntico ao que, supostamente, comporá a pose do dito efabulador. Menos-mal.

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Mas nem tudo é mentira no textinho do homem. Os “comentários” reproduzidos entre aspas são meus, sim senhor. O que o jornalista não quis confessar foi que os recolheu via email, na sequência de umas perguntas que houve por bem enviar-me (há uns dois ou três anos), e às quais não vi mal (ó inocência!) em responder.

Resta dizer que o texto introdutório aos ditos “comentários” é plagiado da crítica publicada por Hugo Pinto Santos neste  sítio (cujo nome, misteriosamente, é igual ao da página brasileira), e que a atribuição de uma das suas frases a Teolinda Gersão  me parece de um humorismo quase genial.

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