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Archive for Outubro, 2009

The Go-Betweens

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A GALINHA

 

A galinha é o melhor exemplo daquilo que acontece a quem vive

sempre ao pé dos homens. Perdeu completamente a graça e a leveza

das aves. Tem a cauda espetada por cima do dorso saliente como

um chapéu demasiado grande e de mau gosto. Os seus raros momentos

de êxtase, quando se apoia numa só pata e revira os olhos redondos

e de pálpebras foscas são de um grotesco espantoso. A juntar a isso,

uma paródia de canto, essa esganiçada súplica por cima dessa coisa

indizivelmente cómica: um branco, imundo e redondo ovo.

 

A galinha faz pensar em certos poetas.

 

(Versão, do inglês, de JMS)

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Virginia Norris Adolph

adolfVirginia Norris Adolph

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yang-chun25

yang-chun1Chen Yang-chun

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– Estamos aqui no Aviário Vida Fácil para entrevistar alguns trabalhadores avícolas. Dona Galinha Poedeira, boa tarde, uma palavrinha para a Tele-Radical…

– Ai eu agora estou a trabalhar.

– Compreendo. Diga-me só o que pensa das suas condições de produção. Acha que a entidade patronal tinha obrigação de lhe dar melhores condições laborais?

– Oh, coitados. Já muito fazem eles. Não, acho que não me posso queixar.

– Não se sente um pouco apertada? Reparo que quase não se consegue mexer nessa gaiola.

– Não. Está-se bem. Eu também não gosto muito de me mexer porque o movimento faz correntes de ar e eu sou muito friorenta.

– Mas essa gaiola…

– Diz aqui que é certificada pela UE e está conforme com todas as disposições do código laboral.

– Diga-me, quantos ovos põe por semana?

– Ah, não faço ideia.

– Sabe contar? Qual é a sua escolaridade?

– Olhe, eu agora não posso falar.

chicken-farm

– Muito bem. Obrigado. Bom, passemos então para este lado. Boa tarde, Sr. Frango. Um pergunta, por favor, para a Tele-Radical. Acha justo ser criado para alimentar seres humanos?

– Homessa! Eu não sou criado para isso. Era o que faltava! Agora, se depois de morto sou comido ou enterrado no quintal – quero lá saber!

– Sabe-me dizer qual é a sua esperança de vida, Sr. Frango?

– Claro que sei. Cinquenta dias.

– E nunca se perguntou porquê cinquenta e não três mil e cinquenta?

– Três mil e cinquenta, bem, bem! Mas você é jornalista e não sabe que a vida de um frango são cinquenta dias?

– Não tinham de ser cinquenta, Sr. Frango. Podiam ser setenta vezes mais. Se são cinquenta é porque a entidade patronal considera que aos cinquenta a engorda está feita e é inútil gastar mais milho convosco

– Ora essa! Mas você pensa que eu sou parvo ou quê? Está a gozar comigo, é?

– Mas é verdade, Sr. Frango. Todos os zoólogos afirmam que, naturalmente, um frango pode viver entre oito e doze anos.

– Não me venha cá com essa treta dos zoólogos, que isso para mim são histórias da carochinha e eu não tenho tempo para fantochadas.

– Desculpe que lhe diga, Sr. Frango, mas só não tem tempo porque não quer. Repare que –

– Ouça lá, meu cientista dum corno, você veio aqui para me moer o juízo, foi? Não percebe que estou a trabalhar e não tenho tempo para conversas de chacha?

– Tem razão, Sr. Frango. Desculpe.

– É cada parvalhão!

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RAÍZES

Sete gerações aqui passaram entretanto,
cumprindo a sua parte do acordo.
Filhos que não impediram a morte de seus pais,
prognósticos inscritos na velha ordem ritual.

Presos às raízes do passado, a nossa curiosidade
é omnívora: queremos saber tudo, conhecer
a composição da superfície, encontrar enfim
um ponto de equilíbrio. Mas a vida real

voltou, vem agora atrás de nós. Ouço-te respirar
do outro lado da linha. Apenas uma curta pausa
entre palavras. No Castelo os ciprestes
aproveitam, envelhecem na mesma direcção.

Mar Largo, & etc.

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mas porque a verdade é bonita e até numa sala de tribunal se deve dizer, serve o presente post para refutar os delírios de um jornalista brasileiro, que aqui dá largas à sua torpe imaginação tropical sobre mim.

Eu nunca me encontrei com nenhum jornalista brasileiro em café nenhum de Portugal, sendo por isso um exagero a sua afirmação de que “nos encontrámos várias vezes” no “Café do Cais” (?), Porto.  Diz o cronista que fuma cachimbo, e não me custa imaginar que substâncias alucinogéneas entrarão na sua dieta de fumador, pelo menos a avaliar pelo teor dos seus desvarios. Não, nunca vivi em Lisboa, não é verdade (infelizmente) que viaje muito, e só por confusão com os seus próprios gostos é que o jornalista poderá ter dito que eu “aprecio Rubem Fonseca, Gullar, Sebastião Nunes”, que nunca li e que para mim tanto podem ser escritores como futebolistas do Fluminense. Lamento ainda que ele me dê como bebedor de cerveja, que além de não coincidir com a verdade pouco contribui para me prestigiar o gosto (custava muito, cara, ter-me inventado uma inclinação para o conhaque, ou para o Campari?), mas dou graças a Deus por não me ter pintado de laçarote à B. Bastos, piercing na pálpebra esquerda, Mallarmé tatuado no antebraço e cachimbo idêntico ao que, supostamente, comporá a pose do dito efabulador. Menos-mal.

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Mas nem tudo é mentira no textinho do homem. Os “comentários” reproduzidos entre aspas são meus, sim senhor. O que o jornalista não quis confessar foi que os recolheu via email, na sequência de umas perguntas que houve por bem enviar-me (há uns dois ou três anos), e às quais não vi mal (ó inocência!) em responder.

Resta dizer que o texto introdutório aos ditos “comentários” é plagiado da crítica publicada por Hugo Pinto Santos neste  sítio (cujo nome, misteriosamente, é igual ao da página brasileira), e que a atribuição de uma das suas frases a Teolinda Gersão  me parece de um humorismo quase genial.

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