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Archive for Maio, 2010

Henry Green, Amores (Tradução de JMS)

Era uma vez um velho mordomo chamado Eldon, que estava deitado no seu leito de morte, assistido pela chefe das criadas, a Menina Agatha Burch. De quando em quando, outros domésticos apareciam no quarto para manifestar, separadamente ou em coro, os sentimentos apropriados à circunstância, após o que regressavam aos seus afazeres.
O moribundo repetia continuamente um nome, “Ellen”.
As janelas ogivais do quarto do Sr. Eldon não tinham estores nem cortinas. Pois isto passava-se na Irlanda, onde não havia imposição de blackout.
Soou um riso masculino. A Menina Burch estremeceu, a voz voltou a ouvir-se. Charley Raunce, chefe dos criados, estava a falar no exterior com o louro Bert, ajudante de copa. Agatha reconheceu a voz, mas não conseguiu perceber o que se dizia.
«… continuando», dizia Raunce, «deves sempre lavar os dentes antes de ir ter com uma rapariga. É uma questão de higiene pessoal. É que eu interesso-me por ti, rapaz, e devias agradecer-me. Olha o que eu te digo, vai com calma, se não queres dar cabo da saúde.»
O rapaz parecia adoentado.
«O que te fazia bem era um copito de whisky», prosseguiu Raunce, mas o rapaz não se atrevia.
«Ali dentro não», respondeu o moço, assustado. «Credo!»
«E porque não? Tu não sabes onde ele tem a garrafa? Claro que sabes.»
«Nem pensar, beber no quarto dele…»
«Ora, não te deixes perturbar com ninharias», disse Raunce. Era um homem pálido, e mais pálido estava nesse momento. «O velhote está com a sua Ellen, não vai dar fé.»
«E a Menina Agatha?»
«É esse o teu problema? Porque não disseste logo? Isso é diferente. Assim já te compreendo. Deixa que eu trato dela.»
Raunce hesitou um momento, depois entrou no quarto. O rapaz ficou à escuta, como se esperasse ouvir um grito. Como a porta ficara entreaberta, pôde ouvir o modo como Raunce expunha o caso.
«Hoje é a minha tarde livre, para o caso de eles se lembrarem de me chamar», disse ele a Agatha. «Se quiser, eu fico a tomar conta dele um bocado enquanto você vai dar uma volta para apanhar ar.»
«Se é assim», respondeu ela, «não me importava.»
«Então, força, Menina Burch. Vá dar um passeio, para desanuviar.»
«Não vou para longe, só uma volta pelas traseiras. Mas se ele piorar, chame-me, está bem?»
Charley prometeu-lho e ela saiu. Bert continuava imóvel, com as facas molhadas na mão direita. A porta estava de novo aberta para trás. Depois, ainda quase ao alcance do ouvido da Menina Burch, ouviu-se o barulho de uma gaveta a ser fechada. Raunce reapareceu, trazendo na mão uma garrafa de vidro talhado cheia de whisky. A porta ficou aberta.
«Vamos a isto. Ouve», disse ele para Bert, «na tua idade, o importante é comer e beber. Eu sei que está um velho a morrer, mas isto para mim vale mais que pão e vinho. Essa é que é essa. Vamos lá para trás da porta.»
No tempo do Sr. Eldon aquilo tinha sido uma espécie de ritual. Entre a parede e a porta da copa formava-se um recanto. Era aí que se bebia o whisky do Sr. Tennant. «Ellen», voltou a ouvir-se, «Ellen».
Aproximou-se um frufru de saias e Raunce meteu a cabeça de fora enquanto Bert, mais escondido por ser mais baixo, só pôde olhar para o lado contrário, ao longo de um corredor traseiro, com os olhos ao nível de uma das dobradiças da porta, e não viu ninguém. Mas Charley avistou Edith, uma das duas criadas de quarto.
A rapariga parou diante da porta aberta do quarto do mordomo. Só quando Raunce disse «Olá» é que ela se virou. Reparou então que Edith trazia uma pena de pavão na bonita cabeça, espetada no cabelo castanho-escuro, ondulado. «Que se passa?», perguntou ele, ao mesmo tempo que lhe mostrava a garrafa com um ar de “olha o que eu encontrei”.
A criada trazia nas mãos uma luva de couro, segura pelo punho. Raunce viu que estava cheia até à borda de ovos brancos e intactos.
«Que susto me pregou», disse ela, com um ar nada assustado.
«Olha o que tenho aqui para nós», respondeu ele, relanceando um olhar à garrafa que tinha na mão. Depois fixou-se na pluma, que era talvez o que a rapariga esperava.
«É melhor tirares isso antes que te vejam», prosseguiu ele. «Que trazes aí? Ovos? Para quê?», perguntou. Bert espreitou por debaixo da garrafa e exibiu o sorriso adolescente que sempre reservava para as raparigas. Sem aviso nem qualquer mudança de expressão, Edith começou a corar. Essa lenta maré congelou os seus olhos negros, dando-lhes um brilho facetado. «Não lhes vai contar», pediu ela. Charley ia para responder “depende” quando soou uma campainha. O painel indicador vibrou. «Pronto, está bem», disse Raunce, saindo para ver de que quarto chamavam. Bert seguiu-o timidamente.

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André Gide

Celui qui agit comme tout le monde s’irrite nécessairement contre celui qu n’agit pas comme lui.

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mas serei o único a saber que os celebrados National fazem os pastelões musicais mais ultra-requentados e desenxabidos de todo cançonetismo neo-pop? Serei o único a saber que o arrastado nhou-nhou-nhou do vocalista, o seródio dum-dum-dum & tche-ta-pum da bateria, já para não falar do amelódico trelim-trelim da guitarra, já davam pátina pelas barbas no tempo em que Tom Verlaine era vivo (aí por 84), e que é preciso ser-se muito jovem, ou extremamente amnésico, para julgar que estes National são mais do que epígonos de epígonos de epígonos? Que a indústria musical promova as suas merdas e tente fazer passar por novo e forte algo tão insuportavelmente mixordeiro, compreende-se e aceita-se, que a vida está cara e os piratas são muitos, mas que os críticos corram atrás como galinhas decapitadas é que me parece menos compreensível. A menos que já não haja diferença entre crítica e cheerleaderness.

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