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Archive for Setembro, 2009

Os latinos não sabem discutir política. Uns porque ainda não aprenderam a arte e tendem a confundi-la com o insulto aos políticos (é o caso português), outros porque foram dela desenganados e caíram na descrença e no cinismo, como os italianos. Em relação a estes, só um povo que se está a marimbar completamente para a política é que pode achar graça à consecutiva eleição de um clown como Berlusconi.

Com isto, fazia falta uma via do meio, um separador entre a ingenuidade e o pessimismo. Mas já se sabe que os separadores centrais não são feitos para a circulação, apenas para a espera (mas de quê?).

la chinoise, goddard

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Gato escaldado

Se um livro recolhe a unanimidade dos críticos e o vemos celebrado em todas as esquinas da blogosfera, isso quase sempre significa que estamos perante um pastelão de receita, confeccionado para o gosto adocicado do intelectual médio. Depois da desilusão com objectos tão incensados como As Benevolentes ou Austerlitz, ninguém me apanhará a ler 2666 do Pena d’Ouro de 2009, que ainda por cima é comparado ao enfadonho alegorista das pampas.  Como na crítica de cinema, se A, B ou C dizem mal, já sei que há boas hipóteses de estar perante uma obra-prima. Pelo contrário, se há cinquenta mil pessoas interessadas nisso, é porque isso  não passa de espuma da saison, literatura aduladora do gosto e do sentimento médio, e nesse caso mais vale ligar a televisão.

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FRIEDRICH NIETZSCHE

 (O Anticristo)

  

Os primeiros a cair, num terramoto,

são os ídolos de pedra, livrando-nos

do peso, não da culpa, que sentíamos

nos ossos. Mas já Deus não era um ídolo

nem nada, nesse tempo:

                                              uma presença,

quando muito, embaraçosa, semelhante

ao napperon oferecido pela tia preferida,

e que corremos a sacar duma gaveta

quando vemos, aos domingos, sua gorda,

generosa silhueta projectada na vidraça

do almoço;

                     ou as quatro, cinco latas

de conserva de absurdo que guardamos

na despensa (apesar de caducada a validade)

para o dia, eventual, em que alimentos

estragados nos pareçam preferíveis ao jejum.

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Era mais honesto e transparente (mas já não se usa) elogiar o Príncipe em pessoa, como no Renascimento, a era dourada da adulação.

 Os panegiristas actuais, mais prudentes, preferem louvar as ideias que melhor servem os negócios do Príncipe (que por azar não existe e só lê semanários).

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Que um político não tenha ideias ou tenha apenas a opinião dos seus interesses pessoais, é normal e compreende-se, mas que não saiba sequer defender aquilo em que não acredita é que é bizarro. Confesso que cheguei a sentir pena da entaramelada Ferreira Leite, ontem à noite, com o seu discurso feito de gue-gue-bes-hum… ma-bo… pa-tê-bo-be…

Se o PSD quer manter a esperança de ganhar as próximas eleições, faria talvez melhor em contratar um malabarista para ensinar a MFL meia dúzia de exercícios com frutos de época. Assim, nos próximos debates, quando alguém a confrontasse com afirmações tão embaraçosas como as que em tempos fez sobre a necessidade de retirar o Estado de áreas de negócio tão apetitosas como a saúde ou a educação, MFL podia fugir à pergunta com três laranjas no ar ao mesmo tempo, o que seria uma forma muito mais elegante e divertida de não dizer nada. Já para não falar de truques com cartas, que os há bem giros. Mas, enfim, MFL está muito longe de ter captado todas as possibilidades do political entertainment no século XXI.

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Glup!

“Tout le rêve de la démocratie est d’élever le prolétaire au niveau de bêtise du bourgeois.”

Gustave Flaubert

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Arrived in London he nevertheless pursued some suggestions of Yeats. He went to see C. Lewis Hind, the editor of the Academy, and was given a book to review to see if he would suit. He wrote an infavorable notice, wich he brought to Hind.

«This will not do, Mr. Joyce», said Hind.

«Sorry», said Joyce and started to leave the room, characteristically not condescending to argue the point.

«Oh, come, Mr. Joyce», said Hind, «I am only anxious to help you. Why don’t you meet my wishes?»

«I thought», replied Joyce, «that I was to convey to your readers what I considered to be the esthetic value of the book you gave me.»

«Precisely. That is what I want.»

«Well!», Joyce went on. «I don’ t think it has any value whatsoever, esthetic or otherwise, and I have tried to convey that to your readers.»

Hind was annoyed and said, «Oh, well, Mr. Joyce, if that is your attitude, I can’t help you. I have only to lift the window and put my head out, and I can get a hundred critics to review it.»

«Review what, your head?» asked Joyce, ending the interview.

Richard Ellman, James Joyce

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