Cientes da hostilidade com que o lendário Professor Doutor Pirata costuma receber jornalistas, foi com alguma apreensão que o Notícias de Serém se acercou da sua humilde morada com a intenção de lhe solicitar uma entrevista. Para grande surpresa do repórter, o eminente sábio não só acedeu a responder (impondo porém um limite de quatro perguntas), como também se mostrou disponível para uma sessão fotográfica. Quando chegámos ao seu quintal, onde costuma trabalhar, faça chuva ou faça sol, o insigne plumitivo preparava-se justamente para esmiuçar uma obra que sempre recolheu unânimes aplausos na redação do Notícias de Serém – A Matéria do Poema, do Dr. Nuno Júdice. Assim, foi com um misto de regozijo e profunda reverência que assistimos ao rigoroso trabalho de análise do Professor Doutor Pirata, e que trocámos depois algumas palavras com este excelso espírito, para ilustração e privilégio dos nossos estimados leitores.
N.S. – Professor Pirata, foi um prazer vê-lo fincar o dente, se nos permite o populismo, nesta magnífica obra do Dr. Nuno Júdice. Que apreciação faz da mesma?
P. D. P. – Pareceu-me um livro denso e consistente, nada fácil de digerir (como eu gosto), com poemas repletos de saborosas imagens, embora nem sempre frescas, sumarentas metáforas, e declarações deliciosamente estúpidas (estúpidas no bom sentido da palavra, claro).
N.S. – O que mais o impressionou neste livro?
P.D.P. – Impressionou-me sobretudo o modo genial como o autor se faz passar por um espírito fátuo, pueril e ignorante, a fim de nos demonstrar que o vento da grande poesia sopra onde quer e dispensa a inteligência do mundo, a agudeza psicológica, a sabedoria formal e demais atavios com que poetas de menor calado julgam necessário enfeitar as suas produções. O melhor elogio que lhes posso fazer, é dizer que este poemas parecem ter sido escrito por uma jovem de quinze anos que tivesse reprovado pela terceira vez no 7º. Ora, sendo o Dr. Nuno Júdice, como todos sabemos, um sessentão profundamente culto, sensível e inteligente, e uma criatura com a experiência do mundo dum caixeiro-viajante centenário, é quase inconcebível o esforço de simplificação imaginativa, digamos, que esta espécie de despersonalização lhe terá custado. Em suma, uma obra absolutamente admirável.

Professor Pirata em pleno trabalho de esmiuçamento.
N.S. – Segundo o Dr. Clive O. Cebolinsky, da Universidade de Oklahoma, um dos efeitos mais gratos e surpreendentes da poesia do Dr. Nuno Júdice é induzir no leitor uma experiência quase mística de vazio mental. Parece-lhe uma observação ajustada?
P.D. P. – O Dr. Cebolinsky é um académico eminente e respeitável, mas sofre duma certa propensão para aquilo a que eu chamo a crítica católico-rombóide, com a sua inclinação para uma espécie de dicotomia funicular espiritual invertida. Não, penso que aquilo que o Dr. Júdice pretende, e soberbamente consegue, é produzir no leitor um entorpecimento, e não um vazio, mental. Por conseguinte, julgo ser errónea e superficial qualquer interpretação mística da poética judiceana, pois o que nela mais sobressai, no meu entender, é o seu uso contracultural e subversivo do idiotismo. O Dr. Júdice não quer, suponho, que o leitor saia dos seus livros com a mente vazia, mas antes com a mente cheia de lixo, de palavreado oco, de lugares-comuns do sentimento e da cultura. Aliás, o autor afirma-o de forma explícita num dos poemas deste livro: “Apanho o lixo do litoral, ao longo da praia […] Guardo os despojos da maré no saco da alma”. Ou seja, o sujeito poético recolhe os detritos da praia (cultural) e enche com eles o “saco da alma”. Assim, tentar ver nesse impulso, digamos, lixeiro – mas paradoxalmente purificador – uma intenção mística parece-me um erro crasso.
N.S. – Os versos que cita trazem-me à memória os de outra figura da contracultura nacional, Alberto Pimenta, quando diz: “Contribuo com o que posso para a lixeira cultural”. Detecta, neste aspecto, alguma sintonia entre ambos os poetas?
P.D.P. – De modo algum. Repare: Alberto Pimenta afirma claramente (e, convenhamos, de forma algo pretensiosa) o seu desejo de “contribuir” para a lixeira cultural, ao passo que o Dr. Júdice se contenta, modestamente, com “recolher” esse lixo. Ou seja, o primeiro é ainda um espírito moderno, com tudo o que o termo tem de pejorativo, um espírito obcecado com a criação (a “produção”), ao passo que o Dr. Júdice é já um pós-moderno, uma alma saturada de cultura, e profundamente desencantada, que encara os destroços dessa mesma cultura como material, quando muito, para uma assemblage literária. Escusado é dizer que, num tempo em que ainda subsistem vestígios do anacrónico culto pelo Autor, a Obra e a Inteligência, a abordagem do Dr. Júdice me parece muito mais rica, subversiva e mobilizadora do que a de Alberto Pimenta.

Professor Pirata demonstra o poder subversivo da Obra em Questão adormecendo sobre o poema da p. 90.
N.S. – Eu sei que já ultrapassámos o limite de perguntas imposto pelo senhor professor, mas não resisto a pedir-lhe que seleccione um poema que de algum modo corporize essas qualidades de idiotismo contracultural subversivo que refere, e, se não é abusar, que mo recite num tom plangente.
P.D.P. – É abusar, e muito, mas como hoje me apanhou excepcionalmente complacente, aqui vai: FLOS SANCTORUM Santa Briolanja/dá-me a canja. // São Agapito, /não me toques no apito. // São Frutuoso, /não sejas guloso.// São Balduíno, / não ouças o sino. // São Sidónio, /faz-te ao harmónio.// Santos Inocentes, /sejam decentes. // Santa Brígida, /não te faças frígida. // Santa Honorina, /o banho é na tina. //São Valentim/ lê-me o Tintim.
N.S. – Sublime! Muito obrigado, Professor Pirata!


ahahahah genial!
Que bom, Miguel.
Abraço.
Vítor
Finalmente, uma análise literária que justifica tantos anos de estudo. Muito bom. :-)