Nem cínicos nem tontos
o bastante para as guerras
mundiais da mercadânsia,
são simpáticos, os “tugas”,
como todos os inábeis.
Se dão pouco, menos pedem,
desafogam-se em abraços
de convívio quintaleiro,
com o mundo num chinelo
e o chinelo ao pé da porta.
Sem mudanças nem conflitos,
são amáveis com os factos,
obedecem aos pequenos
razoados da renúncia,
não se levam muito a sério.
No lagar da contingência,
reconhecem quase a gosto
a astenia da azeitona,
fazem migas do orgulho,
fazem figas, queimam velas
de tamanho não-te-rales
e que se lixe o candeeiro
do futuro. Malnascidos,
comoventes como ratos
na gaveta da cozinha,
com as patas num trapézio
de suspiros cauteloso,
atilados como filhos
primogénitos da fome,
são apáticos, mas giros:
piedosos quanto baste,
confiantes quando podem,
inocentes como poldros,
pés de salsa ao regadio
da vidina providência.
Faço meus os seus defeitos
(a preguiça, a timidez,
a vocação do remedeio)
e agradeço ter nascido
bem pequeno, com espaço
(quer dizer) para crescer
um pouco mais. Pois
não há pior destino
que nascer acabadinho,
já montado na carroça
triunfante da fiúza,
vendo o mundo p’lo binóculo
invertido do umbigo,
com a alma metralhada
de paixão e cupidez.
(Inédito de Erros Individuais, a editar em breve.)
Promete. Descobri aqui, pela primeira vez na sua poesia, a redondilha maior (ou quaisquer outras estrofações métricas). A redondilha cai no assunto como uma luva.
Permita-me uma correcção, nd. A redondilha maior está presente em todos os livros que publiquei, desde o primeiro. Ainda que às vezes me limite a usá-la como base para outras formas métricas, como o endecasílabo.
Talvez o ir bastante embebido na leitura dos assuntos, como é costume suceder-me com a sua poesia, me tenha feito distrair da forma. Casos de menor identificação far-me-iam com mais facilidade contar pelos dedos. Dos seus livros não li o primeiro e o quarto. Os outros, não só os li como os tenho. Agradeço-lhe o esclarecimento, que me deixou bastante curioso, e vou a eles de novo.
irrita-me um pouco que tomem o umbigo sempre por metáfora ou símbolo do fechamento ou do egocentrismo, quando é a marca física e permanente da nossa primeira separação.
de resto, como desconheço formas poéticas e os seus ritmos, não me meto em discussões estilísticas nem comento profusamente poesia. guio-me, antes, pelo que sinto quando leio. gosto dos seus, desde o sino de areia. não tenho todos, mas quando puder, roubo-os.
um abraço