– Estamos aqui no Aviário Vida Fácil para entrevistar alguns trabalhadores avícolas. Dona Galinha Poedeira, boa tarde, uma palavrinha para a Tele-Radical…
– Ai eu agora estou a trabalhar.
– Compreendo. Diga-me só o que pensa das suas condições de produção. Acha que a entidade patronal tinha obrigação de lhe dar melhores condições laborais?
– Oh, coitados. Já muito fazem eles. Não, acho que não me posso queixar.
– Não se sente um pouco apertada? Reparo que quase não se consegue mexer nessa gaiola.
– Não. Está-se bem. Eu também não gosto muito de me mexer porque o movimento faz correntes de ar e eu sou muito friorenta.
– Mas essa gaiola…
– Diz aqui que é certificada pela UE e está conforme com todas as disposições do código laboral.
– Diga-me, quantos ovos põe por semana?
– Ah, não faço ideia.
– Sabe contar? Qual é a sua escolaridade?
– Olhe, eu agora não posso falar.

– Muito bem. Obrigado. Bom, passemos então para este lado. Boa tarde, Sr. Frango. Um pergunta, por favor, para a Tele-Radical. Acha justo ser criado para alimentar seres humanos?
– Homessa! Eu não sou criado para isso. Era o que faltava! Agora, se depois de morto sou comido ou enterrado no quintal – quero lá saber!
– Sabe-me dizer qual é a sua esperança de vida, Sr. Frango?
– Claro que sei. Cinquenta dias.
– E nunca se perguntou porquê cinquenta e não três mil e cinquenta?
– Três mil e cinquenta, bem, bem! Mas você é jornalista e não sabe que a vida de um frango são cinquenta dias?
– Não tinham de ser cinquenta, Sr. Frango. Podiam ser setenta vezes mais. Se são cinquenta é porque a entidade patronal considera que aos cinquenta a engorda está feita e é inútil gastar mais milho convosco
– Ora essa! Mas você pensa que eu sou parvo ou quê? Está a gozar comigo, é?
– Mas é verdade, Sr. Frango. Todos os zoólogos afirmam que, naturalmente, um frango pode viver entre oito e doze anos.
– Não me venha cá com essa treta dos zoólogos, que isso para mim são histórias da carochinha e eu não tenho tempo para fantochadas.
– Desculpe que lhe diga, Sr. Frango, mas só não tem tempo porque não quer. Repare que –
– Ouça lá, meu cientista dum corno, você veio aqui para me moer o juízo, foi? Não percebe que estou a trabalhar e não tenho tempo para conversas de chacha?
– Tem razão, Sr. Frango. Desculpe.
– É cada parvalhão!
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