Achaques e Remoques

Abstrusos, obtusos, abstractos, avestruzes

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A partir de meados do século XX tornou-se consensual entre os poetas, portugueses e não só, que um poema era tanto melhor quanto mais abstracto, e tanto mais “profundo” quanto mais enigmático. De acordo com esse consenso, um poema que remetesse para um resíduo semântico comum ou para um universo de referências passível de partilha e de compreensão pouco mais mereceria do que o apodo de exercício frouxamente discursivo. De repente, foi como se em todos os poetas se desenvolvesse o pânico de serem compreendidos por um qualquer estudante do ensino secundário e a leitura de poesia devesse tornar-se um campo de especialização tão impenetrável como a física quântica. 

. Aquilo que começara, nos poetas franceses do fim do século XIX, como um higiénico afastamento do mundo verbal da burguesia, e que a partir de 1910 se desenvolvera em franca ruptura com os bons modos poéticos tradicionais, desembocando aí numa desesperada negação do sentido, tendeu a degradar-se, com o andar do século, numa maneira tão académica como qualquer outra. Ao facto de esse novo academismo, ou academismo do “novo”, se ter tornado tão rapidamente tão consensual entre os praticantes da modalidade poética não será talvez alheia a facilidade com que permite a qualquer um parecer mais profundo e perspicaz do que é. Não há nada mais fácil do que parecer profundo e perspicaz em verso. Não tem nada que saber: basta enchumaçar de alusões vagas os poemas, evitar quaisquer referências ao que quer que seja de concreto, nublar o discurso com cogitações tão confusas e gratuitas quanto possível, articuladas no modo elíptico da poesia pós-mallarmeana e vanguardista do século XX. Habilmente mutilado, gramatical e semanticamente, até o fraseado mais oco adquire um não sei quê de prestigiante mistério num país, como o nosso, onde o leitor/ poeta médio continua a achar que um discurso é tanto mais “fascinante” ou “poético” quanto mais abstruso e incompreensível. Com isso, não admira que a mais vítrea estupidez passe, amiúde, por alto logro estético e intelectivo, e que o chiste de Agustina Bessa-Luís em Fanny Owen – “Se queres parecer inteligente, veste-te de preto e está calada” – pudesse ser reformulado em: “Se queres parecer inteligente, veste-te de preto e escreve versos sem sentido”.

Dizer isto não significa negar que muito do encanto da poesia passa por um efeito de encandeamento, verbal e imagístico, só possível quando o poeta nos surpreende e nos derruba da poltrona onde esperávamos ver confirmada a nossa expectativa do que um poema deve ser. Também não significa, obviamente, que se confunda poetas obscuros com poetas abstrusos. Convém distingui-los: os primeiros serão difíceis pela singularidade do seu espírito, pela complexidade do seu entendimento do mundo e pela originalidade do seu estilo; os segundos, por fazerem simplesmente do hermetismo um programa e da tolice um foguetório autopromocional. A enormidade que os separa é que para os primeiros a literatura serve para interrogar a realidade humana em todas as suas dimensões, enquanto os segundos a utilizam para fugir do real, encarando a literatura como um bote de palavras para escapar de um Titanic em submersão. Para estes, os abstrusos, a poesia consiste numa feitiçaria sintáctica, numa cortina de fumo destinada a confundir-nos, a fazer-nos crer que existe algo onde só existe um balbucio de nada: bolhinhas de “inanidade sonora”, como defendia Mallarmé, através das quais até as almas mais burguesas e vulgares podem abstractizar as picuinhices que lhes servem de enchimento, na tentativa de camuflarem toda a banalidade do que sabem ou sentem. Em resumo: a leitura de um grande livro de poesia, independentemente do seu grau de dificuldade, provoca no leitor, a par do deleite estético, um abalo intelectual e emocional que o fragiliza e fortalece ao mesmo tempo, que o devolve ao mundo com uma renovada fé na possibilidade de compreender; enquanto da leitura de um poeta abstruso sai-se exactamente como se entrou.

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