A partir de meados do século XX tornou-se consensual entre os poetas, portugueses e não só, que um poema era tanto melhor quanto mais abstracto, e tanto mais “profundo” quanto mais enigmático. De acordo com esse consenso, um poema que remetesse para um resíduo semântico comum ou para um universo de referências passível de partilha e de compreensão pouco mais mereceria do que o apodo de exercício frouxamente discursivo. De repente, foi como se em todos os poetas se desenvolvesse o pânico de serem compreendidos por um qualquer estudante do ensino secundário e a leitura de poesia devesse tornar-se um campo de especialização tão impenetrável como a física quântica.
. Aquilo que começara, nos poetas franceses do fim do século XIX, como um higiénico afastamento do mundo verbal da burguesia, e que a partir de 1910 se desenvolvera em franca ruptura com os bons modos poéticos tradicionais, desembocando aí numa desesperada negação do sentido, tendeu a degradar-se, com o andar do século, numa maneira tão académica como qualquer outra. Ao facto de esse novo academismo, ou academismo do “novo”, se ter tornado tão rapidamente tão consensual entre os praticantes da modalidade poética não será talvez alheia a facilidade com que permite a qualquer um parecer mais profundo e perspicaz do que é. Não há nada mais fácil do que parecer profundo e perspicaz em verso. Não tem nada que saber: basta enchumaçar de alusões vagas os poemas, evitar quaisquer referências ao que quer que seja de concreto, nublar o discurso com cogitações tão confusas e gratuitas quanto possível, articuladas no modo elíptico da poesia pós-mallarmeana e vanguardista do século XX. Habilmente mutilado, gramatical e semanticamente, até o fraseado mais oco adquire um não sei quê de prestigiante mistério num país, como o nosso, onde o leitor/ poeta médio continua a achar que um discurso é tanto mais “fascinante” ou “poético” quanto mais abstruso e incompreensível. Com isso, não admira que a mais vítrea estupidez passe, amiúde, por alto logro estético e intelectivo, e que o chiste de Agustina Bessa-Luís em Fanny Owen – “Se queres parecer inteligente, veste-te de preto e está calada” – pudesse ser reformulado em: “Se queres parecer inteligente, veste-te de preto e escreve versos sem sentido”.

Dizer isto não significa negar que muito do encanto da poesia passa por um efeito de encandeamento, verbal e imagístico, só possível quando o poeta nos surpreende e nos derruba da poltrona onde esperávamos ver confirmada a nossa expectativa do que um poema deve ser. Também não significa, obviamente, que se confunda poetas obscuros com poetas abstrusos. Convém distingui-los: os primeiros serão difíceis pela singularidade do seu espírito, pela complexidade do seu entendimento do mundo e pela originalidade do seu estilo; os segundos, por fazerem simplesmente do hermetismo um programa e da tolice um foguetório autopromocional. A enormidade que os separa é que para os primeiros a literatura serve para interrogar a realidade humana em todas as suas dimensões, enquanto os segundos a utilizam para fugir do real, encarando a literatura como um bote de palavras para escapar de um Titanic em submersão. Para estes, os abstrusos, a poesia consiste numa feitiçaria sintáctica, numa cortina de fumo destinada a confundir-nos, a fazer-nos crer que existe algo onde só existe um balbucio de nada: bolhinhas de “inanidade sonora”, como defendia Mallarmé, através das quais até as almas mais burguesas e vulgares podem abstractizar as picuinhices que lhes servem de enchimento, na tentativa de camuflarem toda a banalidade do que sabem ou sentem. Em resumo: a leitura de um grande livro de poesia, independentemente do seu grau de dificuldade, provoca no leitor, a par do deleite estético, um abalo intelectual e emocional que o fragiliza e fortalece ao mesmo tempo, que o devolve ao mundo com uma renovada fé na possibilidade de compreender; enquanto da leitura de um poeta abstruso sai-se exactamente como se entrou.
E comentar para quê? Para mim, está tudo dito.
nem mais!
subscrevo
José Miguel,
Não poderia estar mais de acordo com este teu post. E dito por ti tem a pertinência adicional de o seu conteúdo ser completamente coerente com a poesia que sempre escreveste. Os meus parabéns, se é que estas coisas se agradecem, pela clarividência e pela partilha.
JLBG
Pena que não se exemplifique a tipificação apresentada com os respectivos poetas e versos. Deste modo é também um pouco abstrusa a indignação.
Tens razão, mas a questão é complexa. Sem dar nome aos bois, difícil apreciar a boiada e os boiadeiros. Uso tal metáfora evidenciando a minha origem, não só do Brasil, mas também do interior, bem rural, bem isolado. Por isso fico meio por fora do assunto. Teoricamente, concordo. Acho que às vezes basta isso.
André Dias,
Não creio que exemplificar com nomes (com versos seria outra coisa, mas não tenho tempo para esses jogos) acrescente grande coisa ao desabafo, até porque às vezes a diferença entre abstruso e obscuro pode ser resultado apenas da nossa desinteligência. O que a mim parece abstruso pode a outros parecer apenas obscuro, e o que a mim parece obscuro pode a outros parecer clarinho como mijo de cerveja. Em todo o caso, se tivesse que apontar à força um poeta abstruso, isto é, um poeta cuja obscuridade é feita de mera confusão mental e prazer de camuflar verbalmente a banalidade do que lhe vai por dentro, não me ocorreria melhor exemplo do que o incompreensivelmente afamado Carlos de Oliveira. Ou uma Ana Luísa Amaral, se quiser.
Obscuros às vezes, mas de modo algum abstrusos, poderão ser o Paul Celan, o T. S. Eliot, o Ashberry ou o Herberto Helder, por exemplo, que não serão poetas “fáceis” (e há algum bom poeta que realmente o seja?), mas em cuja “dificuldade” não pressupomos qualquer prazer de confundir para se dar ares, nem poses importadas de uma qualquer província mental. Ao ler um poeta como Celan sentimos que há ali uma autenticidade emocional e uma riqueza intelectual indesmentíveis e às quais não conseguimos resistir. Enquanto na voz dos abstrusos tudo soa a oco, estúpido e postiço. Mas, como disse, talvez o defeito seja meu.
Em todo o caso, nem só de abstrusas vozes vive a má poesia. Muito pelo contrário. Às vezes os piores poetas, os mais simplórios e banais, até dispensam ao leitor grandes ginásticas hermenêuticas. Basta pensar nas enxurradas verbais de um Ruy Belo, com a sua alma acanhadita, ou nos textos “poéticos”, digamos, de um N. Júdice, com a sua alma inchadazita.
Queria nomes, André Dias, e como vê nomes não faltam, mesmo que seja inútil referi-los e tudo isto seja, inevitavelmente, mais idiossincrático do que “científico”.
Caro José Miguel Silva:
Apesar de subscrever o seu post, já não posso subscrever, em parte, o seu comentário, nomeadamente em relação a Carlos de Oliveira, que considero um poeta maior da nossa literatura e que muito pode “ensinar” ao nível da contenção e do rigor em cada verso, apesar de num ou outro poema haver um excesso metafórico, que a meu ver não interrompe o fluir (palavra que não gosto de usar mas que aqui tem de ser), ao contrário, por exemplo, de um Herberto Helder, esse sim, quanto a mim, muito sobrevalorizado.
Como não posso subscrever a sua opinião em relação a Ruy Belo. Já Nuno Júdice: concordo.
É claro que o José não me pediu para subscrever nada. Mas como o José diz no final, é «mais idiossincrático do que “cientifico”».
Cumprimentos
Caro manuel domingos, o Oliveira pode ser muito contido e silabicamente culto, mas nunca percebi que ele tivesse alguma coisa para dizer dentro e fora daqueles seus puzzles lexicais. Que podiam perfeitamente ter sido escritos por um irmão do famoso Deep Blue que envergonhou o Kasparov. Ou alguma vez sentiste que havia uma existência e uma alma por trás daquele palavreado conceituoso e soporífero? Se aquilo é um poeta maior, meu caro, o que será o António Aleixo?
Mas pelo menos não é tão tagarela como o Belo, essa matraca insuportável e choramingona. Outro “poeta maior”, segundo dizem. Portugal é um país divertidíssimo. Eu acho.
Caro José Miguel Silva:
Também concordo que Portugal é um país divertidíssimo.
Quanto a Carlos de Oliveira. Se o considero um poeta maior (eu sabia que não devia ter utilizado este adjectivo) é pelo simples facto de encontrar na sua poesia uma existência e uma alma – e aqui voltamos à questão das idiossincrasias. Compará-lo a António Aleixo talvez seja um tanto ou quanto despropositado, na minha opinião. Quanto a Ruy Belo. Não considero que seja uma «matraca insuportável e choramingona». É a tal coisa: são gostos. E apesar de serem passíveis de discussão, não deixam de ser gostos. E ainda bem que não gostamos todos da mesma coisa :-)
Cumprimentos
Boa! Gostei dessa da «matraca choramingona»! Como raio não me lembrei disso!
E lembrei-me de outra coisa: nunca se sai de um poeta/poema, seja ele abstruso ou não, da mesma maneira como se entrou. Há sempre algo que muda.
Simpatizo muito com as sanhas contra os cânones estabelecidos. Mas confundir Carlos de Oliveira com Ana Luísa Amaral, ou Ruy Belo com Nuno Júdice, não me merece simpatia alguma. No fundo, com as indignações gerais é que é fácil de simpatizar.
Ouvir alguém da tua posição a dizer o que diz é sem dúvida de louvar. Nem importa aqui se gosto ou não de quem tu apontas o dedo, o importante, parece-me, é finalmente ter encontrado alguém que quebra esse “acordo entre cavalheiros” que vigora em portugal: o respeito que no fundo não é mais que medo – simplesmente não percebi ainda de quê.
Isto tudo também pode servir para o autor se esquivar, ludibriando-nos, ao facto de que não entende alguns “poetas obscuros”, classificando-os de “abstrusos”. É toda uma escala que se pode percorrer. Digamos que o nosso autor conseguirá percorrer apenas metade da escala, sendo que os poetas que ficam fora (para lá) do espectro que atinge são classificados de “abstrusos”. Golpe de génio: junta esses poetas aos que definitivamente não fazem parte da escala (existem muitos, como é evidente, daí algum mérito que possamos atribuir ao texto), e está o assunto arrumado. Os outros é que têm problemas. Espectacular. Nós estamos sempre salvaguardados, mesmo com palas.
O que eu leio como um importante texto teórico, um “manifesto” – que poderia ser subscrito por toda uma “geração” de poetas mas que este em concreto (JMS) teve a clarividência de escrever, – transforma-se em esboço de polémica devido à incontrolável solicitação de nomes. O autor não os escreveu de início, – a meu ver bem – tal como não lhe faltou coragem para os referir quando solicitado, talvez porque estivesse consciente de que a questão dos nomes é sempre fruto de afinidades e recusas muito pessoais e que essa é uma discussão sem fim, necessáriamente diversa para cada um de nós. Ao enveredar-se pela discussão de nomes, perde-se o fundamental deste “manifesto”: a apologia de uma poesia concreta, que implique sem receio as coisas que nos rodeiam, sem medo de ser compreendida (!), com ganas, posso dizê-lo(?), de comunicar. Era mais sobre isso, confesso, que eu gostaria que estivessemos a escrever.
André Dias,
Não é “indignação”, porque a literatura não me parece suficientemente importante para merecer tais sentimentos, e deixou de ser “geral” a partir do momento em que eu , a seu pedido, me dei ao trabalho de particularizar ou concretizar com nomes.
Quanto a Ruy Belo e Carlos de Oliveira, não tenho notícia de que seja obrigatório adorá-los. Deverei recear uma visita da Polícia do Gosto? Mas tenho a certeza de que daqui a vinte anos, quando se dissolver a neblina promocional, toda a nulidade das suas vozes se perceberá muito melhor, como se percebeu em relação a tantos que em seu tempo foram tidos como príncipes do espírito e tal.
Daniel Ferreira,
A minha posição é apenas a de quem vive a 200 km do Chiado e suas duplicidades hipócritas, como muito bem assinalas. Porque o pior de se viver num país acanhado, em que toda a gente se conhece e faz ou deve favores a outrém, é o repugnante exercício de sorriso pela frente seguido de maledicência pelas costas. Para além da hipocrisia, no mundo literário, há também o divertido fenómeno dos consensos por repetição. De tanto nos dizerem que fulano de tal é um mago da língua, acabamos por acreditar que sim, e que nós é que estamos em erro por não vermos ali magia nenhuma. É o medo de ficar sozinho.
José Miguel Silva
Artur Anselmo, presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, em declarações ao jornal Público lembrava, há pouco tempo, que “nós temos 110 mil palavras dicionarizadas – e não falo nas locuções, que aí iríamos para as 300 mil – e o Português básico está reduzido a menos de mil palavras, o que é péssimo.”
Não sei onde é que o José Miguel Silva terá lido que a poesia se tem de fazer com essas “menos de mil palavras”, essas mesmas que toda a gente entende. Não lhe parece um bocado ditatorial, mesmo no sentido de “democracia da maioria”?
Pegando na “logopéia” de Pound e nas capacidades reflexivas da linguagem poética (acredito que não as anule por completo) do léxico à construção do verso e do poema poderá ir um pulo. Espero, pelo menos, que conceba que para alguns poucos seja mais importante “o como se diz” do que “o que se diz”, a tal “dança do intelecto por entre as palavras”, como linhas de fuga à lógica causal.
Estranho é que o José Miguel Silva não consiga entender as diferentes formas de fazer poesia como camadas geofísicas de uma mesma realidade. Parte-se sempre do real e a ele se volta (por onde se anda, entretanto, inscreve-se no domínio da liberdade e da escolha consciente). Pelo menos é assim comigo, que não sendo místico, não conheço mais nada.
Deixo-lhe um poema. Sei que não é a sua “praia” mas, ainda assim, tente lê-lo para lá dos epítetos.
Vi os campos inçados pela improbidade.
Os justos como plainas alucinadas
sobre a incontrição
das esquírolas.
E o desespero
era uma forma de beatitude.
Saudações.
Jorge Melícias,
Compreendeu-me mal se julga que eu defendo o afunilamento lexical. Não o defendo nem o pratico, acho, e nada me aborrece mais do que os poetas que passam o tempo a usar os mesmos vocábulos. Coisa bem diferente é acreditar que a poesia é uma questão de palavras, ou só de palavras – achar, por exemplo, que a palavra “frésia” é mais “poética” do que a palavra “esfregão” ou “iogurte”. Ou que a simples raridade de um vocábulo prestigia um poema. Não penso assim. O que me parece é que a poesia está menos nas palavras do que no olhar inteligente que o poeta lança sobre si e sobre o que o rodeia, de prefer~encia com honestidade e sem poses. Poetas que escrevam de olhos fechados, ou de olhos postos no dicionário, é evidente que não me agradam. Mas também não me incomoda que existam, até porque a variedade só faz bem ao mundo e à literatura. Isso não implica, porém, que não tenhamos o direito a verbalizar as nossas antipatias.
João Luís Barreto Guimarães,
Nem com aspas gosto da palavra “manifesto”, que soa a coisa de polícia literária, e o meu texto não pretende ser nada disso. Apenas um desabafo e uma opinião pessoal, daquelas que, antes de haver esta coisa perigosa que são os blogues, se daria face a face, à mesa de um café. Claro que é um texto que só faz sentido para mim e à luz da poesia que me interessa escrever. Mas eu não defendo, como alguns parecem ter entendido, que a poesia deva ser só uma. Longe disso. Se até sou capaz de reconhecer a grandeza, isto é, a autenticidade, de um Herberto Helder, apesar de ele me interessar muito mais como contista do que como poeta… Disse apenas, e isso porque me puxaram pela língua e eu já ando farto de os ver incensados, é que Belo e Oliveira (de outros nem vale a pena falar) não passam de poseurs imensamente chatos.
Devemos encontrar grande verdades essenciais quando falamos do iogurte que acabámos de comer ou do esfregão com que esfregámos o sebo… Depois, inferir que, pelo facto de se exigir um maior rigor vocabular, afastado da linguagem comum conspurcada pelo uso quotidiano e referencial ligado à realidade imediatamente acessível e manipulável por instâncias de poder, se escreve com os “olhos postos no dicionário”, em vez de com o olhar lançado “sobre si e sobre o que o rodeia”, é no mínimo abusivo. É claro que isto é sempre uma questão de gradação, e que haverá sempre exemplos para tudo. Há, com efeito, poetas abstrusos. Mas este artigo parte de um princípio falso, que é a suposição de que a corrente predominante é essa que classifica de “abstrusa”, quando se pode ver que o que há mais são poetas a desfiar a sua verborreia quotidiana, a repetir over and over as mesmas ideias superficiais e mais que rebatidas, lugares comuns intermináveis, e, pior, compensando o que, no entender do JMS é elitismo por parte dos “abstrusos, chamemos-lhe assim novamente, com citações e evocações a poetas e outros artistas do passado e presente. Como se pelo facto de evocar Bach num poema, ele passasse desde logo a dialogar com o grande músico… (Vê-se perfeitamente que é um subterfúgio, todos gostamos de alardear as nossas leituras e a nossa cultura). Mas o diálogo é mais facilmente constituido através do tal rigor vocabular, que permite o que a Maria Gabriela Llansol (isto não é um poema) chama ressalto na frase. Que abre para um outro significado que, sim, é verdade, um estudante do secundário, dificilmente entenderá (ainda).
“enquanto da leitura de um poeta abstruso sai-se exactamente como se entrou.” Não se sai exactamente, sai-se pior, irritado ou a bocejar.
Cita como não abstruso Herberto Helder, que de facto não é, mas ver-se-ia melhor a sua poesia se o seu “recolhimento” não tivesse um forte efeito mediático e grandes tiragens um pouco pategas. Tirando os seus melhores poemas, tem muitos mais inçados de ganga hiperbólica e tardo-surrealista. Mas não é de todo um poeta abstruso. Ao seu rol de não abstrusos eu teria acrescentado René Char. Para meu gosto, quanto aos outros, teria citado mais e deixado ficar apenas Ruy Belo, embora tenha não poucas laudas imensas e chatas.
Quanto à inteligibilidade dos poemas, estou consigo (e também como leitor da sua poesia) e lembro-me de que já Sena se indignava com essa falta de clareza, desse impropriamente chamado hermetismo, de cujo consenso em vigor desde os meados do Séc. XX, como sabe não fazia parte, pelo contrário, opunha-se-lhe, coisa, entre outras, que ainda não se lhe perdoa. Mas também muitos da inteligibilidade o calam, o que não é o seu caso.
Gostei do «academismo ‘novo’», e fiquei aqui a sorrir. Não sorrio é com este país, antro de fdps e, sem generalizar à minoria que felizmente existe sempre, grande cerca de ovídeos moles que os aplaudem e sonham ser como eles.
O comentário acima fugiu-me numa distração, pensei que as janelas de cima já estivessem preenchidas.
José Miguel Silva
Continuo a entender que a poesia actua, em grande parte, por associação de imagens-ideias.
Quando digo “Os justos como plainas alucinadas/ sobre a incontrição das esquírolas” imagino um campo onde essas lascas de ossos estão constantemente a despontar, a um ritmo vertiginoso (não passível de arrependimento e, logo, de desaceleração) e onde os poucos justos que ainda subsistem estão como plainas alucinadas tentando desbastar essa pura malignidade. Que o seu “desespero” se aproxime de uma espécie de “beatitude” é também algo que eu imagino como radicalmente belo.
Mas isto é o que eu vejo. Sei, por experiência, que nem toda a gente vê isto, há mesmo quem não veja nada. E aí a culpa será minha, mas será sempre uma “felix culpa”, uma vez que optei, conscientemente, por me exprimir daquela forma e não de outra.
O que eu vejo também é que (e conhecendo um pouco da sua poesia e do seu, por vezes cáustico, criticismo aos tempos que correm e à natureza humana) as nossas poesias são capazes, a espaços, de se tocar. O percurso (chame-lhe poética ou oficina) que elas desenvolvem para, eventualmente, poderem chegar a esse mesmo sítio é que é radicalmente diferente. Mas, como bem diz, a variedade “só faz bem”.
Houve alguém que um dia me disse (referindo-se, precisamente, a essa questão lexical) que era como se eu pedisse aos meus poucos leitores que construissem a navalha com que, posteriormente, se irão cortar. Sei bem que isso é o que se passa com toda a boa poesia, que todo o bom poema exige isso do seu leitor (seja pela via léxical, seja por outra via qualquer). Mas aquela frase fez, para mim, muito sentido naquela altura, como contínua a fazer agora. Não se entra num poema incólume (se bem que seja mais grave sair dele ileso). Li pela primeira vez o “anabase” do Saint-john Perse em 1992. Passados mais de quinze anos continua a ser um livro aberto para mim. E se é verdade que já consigo entrar lá com mais facilidade experimento, ainda, as mesmas dificuldades para sair.
Quanto a verbalizar as nossas antipatias não serei eu nunca (com este bom feitio que se me reconhece) a atirar-lhe a primeira pedra.
Saudações
Caro José, sem tomar posição sobre o conteúdo teórico, deixe-me dizer-lhe que considero excessivo o tom raivoso do post. Aquilo que poderia ser uma intervenção interessante a propósito da poesia contemporânea portuguesa soa-me, entrando no tom, a destilação de figadeira, o que a transforma num acto falhado. É de facto pena que, José M. Silva, poeta e crítico(!), faça, no tema, uso de uma certa indignidade literária, que não lhe esperava – diga-se, reduzindo, irresponsavelmente, a questão a um escombro de improbidades. Mas enfim, este é o retrato da nova geração literária e crítica (!) portuguesa. Acompanhando, à distância -é certo, os periódicos literários, e tendo até ao momento em consideração as suas intervenções críticas, lamentavelmente, não o poderei levar a sério daqui em diante.
PS- Curiosamente, não se entende nestas intervenções actuais a base do problema: o que é, para José M. Silva, a poesia?
Deixo a pergunta, igualmente, aos comentadores.
Só de ler Manuel Anselmo fiquei mal disposta!
E interessa, ao poeta, saber o que é a poesia?
Interessa é que a faça. E se não a faz, que se cale.
E sim, há poetas que não são poetas. E ainda há os chatos esotéricos de cabelo à poeta e os narizes de cera à poeta.
Ou ainda vamos no tempo em que o Mao era um grande poeta?
E por que raio de carga de água não posso eu dizer, enquanto leitora de poesia, que o Régio é um merdas, o Belo um ladaínhas choramingadas, o Judice um parolo? Ou tenho de comprar e lêr o que os criticos recomendam e comer por bom o que querem? Querem ver que também há poeticamente correctos?
Os criticos que se matem em teorias, que é para isso que vivem. Olhem bem a minha figura se só comprasse oslivros recomendados pelo António Guerreiro! E olhem que o António Guerreiro ainda é um dos poucos que leio. Leio pela escrita, pelo raciocínio – como leio o José Quitério. Mas não compro o que o Guerreiro louva nem como o que manda o Quitério. E em muitos ocasiões, permito-me – imaginem aí os doutores – rir à gargalhada.
Chateei-vos? Ainda bem: é para isso que servem os leitores.
O problema é sempre o mesmo, desde que o novo de há 80 anos se tornou académico, isto para desmontar a saborosa definição de JMS. Por mim penso – e quem sou eu? certamente um Larkin elevado a -10 -, mas penso que a poesia de hoje é para ser entendida, e ser do seu tempo na linguagem e nos assuntos, e estes também de tempo nenhum. No entanto, reconheço a liberdade de quem junte palavras num copo de pocker e tente a sorte de um fullen, em nome das mil e uma leituras. Desde que não me ponham a mão na boca e me deixem bocejar como o leão da Metro, claro.
João Moita,
Talvez eu não ande à procura de “verdades essenciais” (cuja existência, de resto, tenho por muito suspeita e duvidosa), e nisso residirá toda a diferença entre nós. Prefiro iogurtes a néctar e ambrósia, alimentam mais; e quanto à importância dos esfregões, só não a reconhece quem tem a sorte de viver num mundo “clean”, quiçá platonicamente “clean”. Não é o meu caso.
Em relação à expressão “rigor vocabular”, a partir do momento em que a vi aplicada a uma poesia tão frouxamente discursiva como a de Belo, fiquei convencido de que não significa o mesmo para toda a gente. Para mim essa expressão alude sobretudo a uma correspondência o mais límpida possível (ou exacta, se o termo não for demasiado forte) entre as palavras e as coisas, sejam estas vistas, pensadas ou sentidas. Aquilo que eu vejo em muitos dos poetas a que você se estará a referir com essa do rigor coiso é confusão mental e filosofância incipiente. Eu tenho um preconceito, confesso, em relação a elucubrações teóricas ou pseudo-filósoficas em verso. Quando quero ler filosofia pego num livro de Levinas ou Sloterdijk , por exemplo, e os elegantes devaneios à la Blanchot parecem-me melhor em “l’espace littéraire” do que nos versos de… mas chega de nomes. Por último, engana-se se pensa que o meu texto tem como ponto de partida o que quer que seja relativamente à “corrente predominante”, seja esta qual for. Não acredito em correntes ou grilhetas – quando muito acredito em quebrá-las – acredito em indivíduos, apenas. Isso das correntes é bom para escravos.
anna esther fagundo,
Se soubesse como eu gosto de agradar, como me importa que gostem de mim, adivinharia o aperto em que as suas palavras me deixaram. Estou a chorar convulsivamente. A única coisa que me alegra um pouco é saber que ainda há quem acredite em “actos falhados”. Que giro. Aposto que você vive no Texas. Acertei? Quanto ao que é a poesia para mim, essa é fácil de responder: é a maneira mais divertida de irritar as boas almas e ficar sozinho.
Caro JMS,
Não pretendia que se irritasse com as minhas palavras, um pouco francas. O meu propósito foi o de perceber a que tipo de gente corresponderia. É evidente que o JMS gosta de agradar, assim como se importa que gostem de si – daí a sua, inusitada, irritação perante o que escrevi. Quanto ao “aperto” deve resolver a questão no âmbito estrito da sua sexualidade. Se chora ou se não chora metaforicamente é problema de gosto seu. A alusão ao texas parece-me, na sua idade, um pouco infantilóide. Aprecio, no entanto, a ligeireza da resposta a uma pergunta que, se bem reparou, não lhe foi colocada: sobre que trata a poesia. A pergunta foi colocada aos comentadores, pois como havia atrás mencionado não mais o levaria a sério. Mas já que respondeu, lhe agradeço o desvelo, e o arrojo de se augurar, também você JMS, como outros – no auge da sua/vossa diversão (já que a poesia serve para divertir, como o diz), numa espécie de gato fedorento da poesia. Olhe, até me dei ao trabalho de pegar num poema seu:
“A verdade é que também as urtigas
me aborrecem. Esta doçura dos pássaros,
a silvestre quietude da tarde atravessada
pelo balido das ovelhas, grandes imitadoras
de Edith Piaf, tudo isso não chega a ser
tão daninho como a luz de um semáforo
vermelho, mas um pouco de sangue
na biqueira do sapato faz-me falta.
Faz-me falta praguejar, ter um lago
de cimento onde cuspir, obstáculos
de fogo, fantasias, a metralha dos calinos.”
Tem um pouco de tudo: de abstruso (“da tarde atravessada
pelo balido das ovelhas, grandes imitadoras
de Edith Piaf”), de obtuso (“tudo isso não chega a ser
tão daninho como a luz de um semáforo
vermelho”), até de abstracto (“ter um lago
de cimento onde cuspir, obstáculos
de fogo, fantasias, a metralha dos calinos”), imagine.
A única diferença, é que o JMS devendo ter vergonha do que escreve e fazer, na melhor medida, como a avestruz, ainda se dá ares de pavão.
Agradeço-lhe, a final, que mesmo lhe apetecendo ou apenas por dever de ofício, não perca tempo, a estes meus considerandos, com mais respostas ou justificações.
A D.ª Ester Fagundo, que pelos vistos parece ser também facunda, não sabe o que diz, e não faço ideia de que versos lerá para ter uma converseta destas. Que tem o poema que se lhe aponte? Das duas, uma: ou é uma fã do Manuel Alegre ou um académico “novo” travestido de ana com dois enes e de ester com tê agá.
cara anna esther fagundo:
já ouviu falar de ironia ou até mesmo de sarcasmo?
À afirmação de José Miguel Silva:
«…achar, por exemplo, que a palavra “frésia” é mais “poética” do que a palavra “esfregão” ou “iogurte”…»
João Moita respondeu, irónicamente:
«Devemos encontrar grande verdades essenciais quando falamos do iogurte…»
Muito bem. O que se segue é o poema que Manuel António Pina escreveu para o livro “A Que Cuida” (edição Modo de Ler, Porto), evocando os incansáveis cuidados que Ana Maria Moura prestou a Eugénio de Andrade nos últimos anos da vida do poeta. Espero que este exemplo contribua para se entender a posição que José Miguel Silva tem vindo a defender neste colóquio, sem precisarmos de baixar o tom do discurso.
Ah! E notem, por favor, na palavra… “iogurte”.
A HORA DO LANCHE
Na mão de Ana o iogurte não
iluminava, escurecia,
comunhão ajoelhada
no fundo do coração do dia
imemorial onde, desperto, ele dormia.
O movimento da colher embalava-o
como uma música que quase se ouvia
neste mundo ou como o colo que o adormecia.
A tarde declinava, as sombras,
como sombras, alongavam-se na almofada;
tudo fazia um sentido
literal e simples, onde não pode a poesia.
Se alguma coisa ficara
por dizer já não iria ser dita;
as palavras tinham-se sumido, transidas,
no interior da casa, o próprio silêncio emudecera.
Senhor, permite que adormeçamos
antes que feches a luz e desça
sobre nós a tua escuridão,
que os rebanhos estejam recolhidos
e os credores se tenham afastado da nossa porta,
mas que tenhamos pago as dívidas aos que nos serviram
e aos que nos amaram e aos que nos esperaram;
as tuas grandes mãos sustentarão o telhado e as paredes,
e moerão o grão e fermentarão o trigo,
apaga com as tuas mãos para sempre o rasto
da nossa vida
e que repousemos enfim
sem motivo para nos culparmos
por não termos sido felizes.
Foz do Douro, 26 de Janeiro de 2005
Manuel António Pina
Caro nd,
Não sendo hábito responder a encapuzados, faço-o apenas por motivos pedagógicos, por presumir tratar-se, na sua abreviatura singela, do pequeno Noddy (aparentemente com vergonha do uso do duplo d). Não entendo o alimento da sua reacção: sai tão em defesa da minha análise do poema que pareceria tratar-se do próprio autor, não fora o mesmo alérgico a reconhecimentos, estados de alma ou simpatias, ainda que putativas. E não seja preconceituoso quanto a Alegre. Tal como eu não sou preconceituosa quanto a qualquer substância avernosa… que leio, sempre, com agrado. Receio, apenas, que não tenha entendido o escopo da minha intervenção inicial. Não me opus ao conteúdo, mas à tramitação, que me parecendo facunda, em nada contribui para um debate fecundo. Quanto ao resto foi ironia, até mesmo sarcasmo. Já ouviu falar disso?, sem se exaltar como se lhe tivessem a puxar os pelos do nariz. Até mais ver, parece-me que o noddy lhe assenta melhor como adjectivo do que como nome próprio. Fico-me por aqui.
Ignorante assumido no que à poesia diz respeito (e não só), não deixo, por isso, de me emocionar com poetisas indignadas e ásperas.
Principalmente quando escrevem em prosa e têm nomes estrangeiros. É bonito!
Caro João Luís Barreto Guimarães,
Tinha jurado não me imiscuir mais neste assunto, até porque não é meu costume sentar-me à mesa do café a entreter o tempo com competições de retórica onde o assunto tratado é o menos importante, desde que fiquemos por cima, claro está. Aceito que reincidi. Mas, de certa forma, nem lhe vou responder, até porque o que colocou em jogo não foi uma questão teórica, ou o que lhe quisermos chamar, mas uma questão de autoridade, na qual eu faria muito má figura, já sei, se me pusesse a discordar (mas nem sequer discordo). Trata-se de nomes: Manuel António Pina, Eugénio de Andrade. E de uma acção que, segundo os códigos morais vigentes, se reveste de grande valor, diz-se: humanidade. E por sorte tem lá a palavrinha “iogurte” (já esfregão não tem). Mas não vejo em que é que a existência desse poema, ligado a tão grandes instâncias de autoridade, vem mudar alguma coisa no que tem vindo a ser dito, ou muda? Não vejo como. Também poderia evocar aqui exemplos revestidos de grande autoridade que suportariam o que anteriormente disse. Mas não passariam disso, de meros e exíguos exemplos. Quiçá excepções.
Em todo o caso, sinceros cumprimentos.
Caro João Moita,
Espero que o José Miguel Silva não leve a mal estarmos aqui demoradamente a prolongar a conversa em casa dele, neste canto da sala.
Deixe-me apenas revelar-lhe uma coisa: a palavrinha “iogurte”, como diz, não está naquele poema por «sorte». O Manuel António contou publicamente numa das últimas edições da Feira do Livro do Porto em que participei, com o Pedro Mexia e o Luís Miguel Queirós que tendo decidido utilizare a palavra “iogurte” num poema – por aposta ou desafio – não descansou enquanto não encontrou pretexto para a utilizar. Isto tem a ver com escolhas léxicais, é verdade, mas também tem a ver com familias poéticas. Também por isso que não se devem comparar poetas nem poemas. Para Egito Gonçalves, por exemplo, que antecipou em 20 anos muita da poesia que hoje se escreve, ou para um conjunto de literaturas de Leste, aprisionadas numa redoma política adversa, o problema do concreto/abstracção (abstracção/figuração) nunca se colocou nestes termos.
Mas não vamos voltar ao princípio. Já que teve tanto fair-play na resposta que me endereçou, o que agradeço, não me ocorrendo por agora nenhum poema onde possa encontrar a palavra “esfregão”, deixo-lhe este texto de Howard Nemerov (Nova Iorque, 1920-1991), em tradução minha, onde se lê a palavra “aspirador”.
Mas veja isto como jogo limpo.
THE VACUUM (1955)
The house is so quiet now
The vacuum cleaner sulks in the corner closet,
Its bag limp as a stopped lung, its mouth
Grinning into the floor, maybe at my
Slovenly life, my dog-dead youth.
I’ve lived this way long enough,
But when my old woman died her soul
Went into that vacuum cleaner, and I can’t bear
To see the bag swell like a belly, eating the dust
And the woollen mice, and begin to howl
Because there is old filth everywhere
She used to crawl, in the corner and under the stair.
I know now how life is cheap as dirt,
And still the hungry, angry heart
Hangs on and howls, biting at air.
O ASPIRADOR
A casa está tão calma agora
O aspirador amuou no armário de canto,
Seu saco aleijado como um pulmão imóvel, sua boca
Zombando para o chão, talvez da minha
Vida desmazelada, da minha irresponsabilidade.
Vivi tempo suficiente assim,
Mas quando a minha velha morreu, sua alma
Entrou dentro daquele aspirador e eu não suporto
Ver o saco inchar como um ventre, comendo pó
E camundongos, começando a uivar
Porque há imundice por todo o lado
Onde usava rastejar, nos cantos e sob a escada.
Sei agora como a vida é reles como lixo,
Ainda assim o coração ávido, irado
Resiste e brama, mordendo o céu.
« É um poema que nos fala do doloroso vazio que se instalou na vida do narrador após a morte da mulher. Alguma coisa se perde na tradução, é claro, desde logo o jogo entre “vacuum”(vácuo, vazio) e “vacuum cleaner”(aspirador), tomados no inglês pela mesma palavra. O trabalho de personificação a que o narrador procede é evidente logo desde o segundo verso. É como se o aspirador representasse a mulher – com pulmões, boca e ventre – e a sua possível fobia pelas limpezas, aqui amuando a um canto por não ser usado mas rindo da enorme desordem em que se transformou a casa dele. Agora que ela partiu, o narrador vive rodeado de lixo porque não consegue tocar no aspirador já que vê nele a mulher. Tratando-se de um tema tradicionalmente triste, a morte, este consegue ser também um poema deliciosamente irónico, como se o narrador quisesse dizer que de tanto apontar à esposa a sua mania pelas limpezas, ela partiu deixando-lhe o aspirador – simbolo da limpeza – a representá-la, como uma maldição. Por outro lado, o vazio (“vacuum”) em que a sua vida se transformou, também contribui para a estagnação e a imobilidade de que a sua vida padece. Por isso o narrador que começa o poema apreciando a calma que se instalou pela casa, acaba-o com o coração aos saltos, na urgência pelo regresso de ruído e movimento. Repare como Nemerov é feliz com a imagem sonora da sístole e da diástole do coração, usando a música das palavras “hungry, angry” que tentei traduzir (insuficientemente) por “ávido, irado”. Optei pelo título “O aspirador” e não “O Vácuo” ou “O Vazio”, porque este é também um poema que realça como a placidez da morte faz com que a vida pare, de como a morte e o seu vazio provocam… dor. By the way, por altura da escrita deste poema, a mulher do poeta não havia morrido. Mais um exemplo de escrita sob a capa de uma persona literária. (Poesia & Lda»
Como escreveu José Miguel Silva no seu post:
«…a leitura de um grande livro de poesia, independentemente do seu grau de dificuldade, provoca no leitor, a par do deleite estético, um abalo intelectual e emocional que o fragiliza e fortalece ao mesmo tempo, que o devolve ao mundo com uma renovada fé na possibilidade de compreender».
Não seria capaz de o dizer melhor.
Terão à partida os vocábulos “iogurte” ou “aspirador” mais potencial poético do que “valvulina” ou “laminagem”, por exemplo? É só uma rasteira curta que vos deixa quem não tem paciência para estas discussões…
Não tem nem mais nem menos, André Dias. Repito: a poesia não está, acho, nas palavras individualmente e por si, mas no modo como se ligam umas às outras, e com o mundo à volta, interior e exterior. Transferindo a imagem para outra arte, será o vermelho mais essencialmente pictórico ou artístico do que o azul ou o malva? E estaria Cézanne errado ao pintar maçãs em vez dos espelhos de Versailles? Será um boi esquartejado (como no quadro de Rembrandt) um tema digno da alta pintura, com tantas princesas por pintar. E que dizer das tabernas de Jan Steen?
Rasteira curta, tem razão…
João Luís Barreto Guimarães,
Para mim nunca foi uma questão de possibilidade mas de probabilidade. Pode-se escrever poemas com as palavras que se quiserem. Nem fui eu que levantei a questão do “iogurte” e do “esfregão”. Simplesmente achei piada quando o José Miguel Silva se pôs a comparar o grau de poeticidade das palavras, dizendo que as mais rebuscadas não são mais poéticas que as mais vulgares. Ora, isso também funciona ao contrário: “iogurte” não é mais poético do que “frésia”, e, nesse sentido, a palavra “frésia” não deve ser menosprezada, com a vantagem de a palavra frésia se referir a uma flor, que como sabemos, é mais facilmente simbolizável, isto é, mais facilmente se procederá a uma transfiguração no significado que a faz aceder a uma significação nova, a uma conotação, em suma. O mesmo em relação à fonética: a frescura e ligeireza da palavra presta-se igualmente a uma maior conotação. Mas isso não lhe dá nenhum espécie de supremacia, a utilização é que vai sempre ditar a poeticidade da palavra.
Isto tudo para dizer que, no que toca à questão que o João inicialmente levantou (é certo que acusando já a minha intenção irónica), apenas me permiti o recurso à ironia, que nem eu levo a sério mais do que um largo sorriso interior.
Em todo o caso, é-me indiferente se existem poemas com a palavra x ou y.
Tudo isto levou-me a escrever uma breve reflexão que publiquei no meu blog, se tiver interesse dê uma espreitadela. Mas não prolonguemos mais, até porque as posições ficaram, parece-me, definidas. Nesse aspecto, recorro sempre ao Vergílio Ferreira. Primeiro fazemos as nossas escolhas, e depois procuramos acrescentar-lhes a autoridade do pensamento e da reflexão. Da mesma forma que não decidimos através de argumentos a nossa posição, também não vai ser discutindo desta maneira que vamos conseguir alterar ou acrescentar alguma coisa ao que já ficou decidido inconscientemente.
D.ª Ester
Não tem por hábito responder a encapuçados, diz. Tudo bem. Se eu fosse a si, enforcava-me, para honrar a falta de coerência consigo mesma. O nome com consoantes duplas parvas, que põe nos comentários, não tem nenhuma referência que o valide. Fui ao Google, coloquei-o entre comas e nada. O meu está no blogue e no Google e corresponde às iniciais.
A D. Ester veio com raiva, uma raiva subliminar, surda, prosélita. Talvez seja um travesti do novo velho. Eu vim aos comentários, porque me identifico ideia que o anfitrião exprimiu, acerca dos académicos do “novo”. Desfazendo os seus remoques sobre a Averno, digo-lhe que pertenço a uma das gerações que JMS situa a partir dos meados do século XX e hoje tão teimosamente continuadas. JMS não precisa de que o defendam. Vim, como disse, pela ideia, espelhada nisto abaixo, que escrevi há não sei quantos anos. O Anfitrião que me desculpe.
ANOS 60
Eu era muito novo e dava voltas
àquele livro e não o percebia.
Não é para o entenderes, afirmaram,
e chamaram-me burro iliterato.
Estudei hermenêutica, esforcei-me,
cheguei a decifrar o Apocalipse
de S. João sem ter qualquer ajuda.
O outro livro é que não. Era poesia
da melhor, garantiram. Ai de mim,
que gastei nele o meu dinheiro todo
e ainda hoje lhe tenho má vontade.
nd (outra vez)
Também tenho um poema (um excerto):
(…)
A solidão será sempre a minha mulher de areia
mas eu reconheci o oiro secreto das virilhas da terra
e escrevi palavras em que o sémen ascendia por torres
e inundava as estrelas e os crânios dos mortos
António Ramos Rosa, Os animais do sol e da sombra seguido de O corpo inicial
Que tem um excerto, diz ele. Só um?!
Valha-me o inefável santo ambrósio mais a imarcescível corte celestial !
( e fui-me no meu piaçaba boador)
Soneto pós-moderno
Literalmente obscuros
os poemas abstractos
são profundos, e são duros
(só roídos pelos ratos),
pois em vez de parafusos
e das solas dos sapatos
têm versos abstrusos
onde poisam olharapos.
Sem qualquer conotação,
sem semântica concreta,
a raiar a equação
do vazio do poeta,
dada a pose, tão herméticos,
faço poemas heréticos.
Domingos da Mota
http://fogomaduro.blogspot.com/
Leio poesia de vez em quando.
Encontrei este blog hoje, por acaso.
Nunca tinha lido, (ouvido) uma discussão entre poetas sobre poesia. Achei muito interessante.
Olá José Miguel
Já muito tardiamente deixo um comentário nesta sua publicação porque só hoje descobri o seu blog. Li com muito interesse este seu texto de opinião e todos os comentários, uns mais acesos que outros, que o mesmo suscitou.
Não sou a enteJosé Miguel, o gosto nasce do que se sente, não vale a pena sequer discuti-lo porque não há explicação lógica para tal.
Citou alguns poetas que necessariamente para si não têm qualquer interesse já para outros não se passa assim. Como se costuma dizer é impossível agradar a gregos e a troianos.
No blog Poesia & Lda descobri um poeta indiano com um nome muito difícil que termina o poema “Cactos” com estes versos:
“Crio outra beleza,
para além do luar,
deste lado dos sonhos,
uma afiada e penetrante
linguagem paralela.”
é isto que os poetas fazem, criam as suas próprias linguagens paralelas, uns gostam outros não.
Concordo consigo quando diz que vivemos num país acanhado, é verdade, mas é talvez importante lembrar que somos uma jovem democracia, somos um povo replecto de grandes feitos mas que ainda não conseguiu o feito de se libertar da herança que nos ficou de uma ditadura de 50 anos em que aprox. 100% (com o devido exagero) da população era analfabeta. Esta herança parece-me tem um peso ainda nos dias de hoje muito maior que a maioria das pessoas possa pensar. Este argumento pode parecer meio descontextualizado do tema mas uso-o simplesmente para acrescentar que o gosto além de nascer daquilo que se sente creio que também se educa.
Os portugueses têm muita massa crítica mas a meu ver tem sido mal orientada, no que diz respeito às artes pouco ou nada se faz a nível educacional neste país e da poesia nem se fala. A maior parte dos jovens conhece vagamente Fernando Pessoa e pouco mais. Por isso no seu blog praticamente só leio comentários de pessoas notoriamente sabedoras do assunto. Ora a poesia faz parte do mundo das emoções, é subjectiva.
Se me disserem que Herberto Helder é excepcional ou um génio eu admito, é de facto, mas do que tenho lido chego a essa conclusão porque me parece quase impossível o que ele constrói com as palavras no entanto para mim o que verdadeiramente o distingue não é o poema no todo, é aquele verso absolutamente do outro mundo que sempre existe nos seus poemas. Portanto para um assunto discutível nunca se chega a uma conclusão.
Para terminar o que me parece realmente importante nestas questões é sabermos ser tolerantes com o gosto de cada um e sobretudo sabermos ser elegantes com a crítica que fazemos e a sua, há-de desculpar-me, parece-me muito forte. O José Miguel também é poeta e naturalmente lá bem no fundo também lhe há-de doer a crítica dura.
José Miguel, eu também escrevo poesia, com letra minúscula porque não me considero poetisa sei que nunca serei, falta-me a “estaleca” poética mas é um prazer para mim escrever o que escrevo e isso já vale por si só.
Se lhe apetecer visite o meu blog mas se o fizer e pensar deixar um comentário não seja muito duro. (estou a rir)
http://poesiamariajb.blogspot.pt/
Um abraço e continue sempre a escrever
MariaJB
José Miguel
Reparou com certeza que o 2º parágrafo não começa da melhor forma, sem querer apaguei o que tinha escrito. Não vou repôr porque o comentário já está longo demais e não era tão importante assim.