o acesso à cultura esteja dependente de uma coisa: saber inglês. Alguns exemplos:
Histórias, Heródoto, 8 volumes (!!), Ed. 70. Preço 90 euros
Histories, Herodotus, 1 volume, Penguin Classics. Preço 14 euros.
Histories, Herodotus, Oxford Classics, Abebooks (usado). Preço 6 euros
Guerra e Paz, Tolstoi, 3 volumes, Presença. Preço 53 euros
War and Peace, Penguin Classics. Preço 13 euros
The R. W. Fassbinder Collection (1973-82), 8 filmes. Amazon UK. Preço 32 euros
Coleccção R. W Fassbinder, 7 filmes. FNAC .Preço 70 euros
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Miguel, talvez não tenha muito a ver com o post mas…
Uma espécie de Jihad educacional
Santana Castilho
Por ser obrigatória, a escolaridade não é sinónimo de mais e melhor educação Sucedem coisas na Educação que nos remetem para o limbo das verdades absolutas e das guerras sagradas e sugerem uma espécie de Jihad educacional. Com uma diferença de monta: Maomé queria converter; Sócrates quer obrigar. Manter o maior número de almas na escola, quer queiram quer não, tornou-se mais fundamentalista que conseguir conversões ao islamismo. Com uma segunda diferença de monta: Maomé não escapou sem a concorrência de Cristo, Buda ou Vishnu; Sócrates está acompanhado por todos, do CDS ao Bloco, passando pelo PSD e PC, mais sindicatos, associações de pais e outras cortes. Até Louçã gritou aleluia na Assembleia da República. Um bingo politicamente correcto!
Blasfemo, eu sou de opinião que obrigar os portugueses a permanecerem na escola até aos 18 anos é um rematado disparate. Eis alguns dos argumentos com que fundamento esta opinião:
1. Vivemos tempos onde as leis e as práticas são cada vez menos democráticas. À bruta aqui, placidamente ali, o polvo socializante do Estado, em verdadeira deriva autoritária, vai-nos sufocando e controlando electronicamente. Os direitos do Estado são constantemente invocados para espezinhar, com a submissão generalizada duma sociedade abúlica, os direitos do cidadão. Serve tudo como argumento: a fuga ao fisco ou as normalizações comunitárias; a dificuldade de esterilizar as colheres de pau ou a bondade de respirar ar puro e fazer jogging ao domingo e feriados. Como pai, não aceito que o Estado decida por mim e pelos meus filhos a educação que eles prosseguem. Como cidadão, quero liberdade para trabalhar aos 16 anos, como, aliás, o próprio Código do Trabalho consigna. Deve o Estado garantir a todos que queiram e tenham capacidade para tal, sublinhe-se, a prossecução de estudos, sem entraves. Mas não deve o Estado impor a Escola a quem já pode ser responsabilizado por crime, sabe o que faz e quer ir trabalhar. Porque ao invés de ser compulsiva, a Educação deve ser tida como um direito. Chega de Estado que diz proteger-nos de tudo menos dele próprio e de uma certa geração política de que o primeiro-ministro é rematado exemplo.
2. Ao argumento anterior, que é teórico, acrescem outros, de natureza prática. Os nove anos de ensino obrigatório, aprovados em 1986, demoraram 10 anos a transpor para a prática efectiva. Ainda hoje não são cumpridos na íntegra. Se teimarmos neste disparate e quisermos manter na Escola, à força e à pressa, quem lá não quer estar ou não tem capacidade para prosseguir estudos, acrescentaremos mais violência e mais indisciplina a um ambiente que já é grave. Tal medida, a não colher o primeiro argumento, pressuporia uma preparação que não foi feita (basta ver a ligeireza da ministra, que não há muito disse que a medida seria um erro, e agora afirma que não precisa nem de mais escolas nem de mais professores para receber os estimados 30.000 novos alunos). Pressuporia uma reformulação completa dos objectivos e das vias do ensino secundário, principalmente quanto ao ensino profissional que, como está, é um criminoso logro. Pressuporia a efectiva gratuidade do ensino, que está longe de estar cumprida no quadro dos 9 anos vigentes. Se uma das causas do actual abandono, que se aproxima dos 40 por cento, radica nesta variável, alguém de bom senso antecipa que a sociedade, com dois milhões de pobres e dois milhões de assistidos, mais de meio milhão de desempregados e PIB a cair aos trambolhões, pague para ficar com os filhos 12 anos sentados na Escola? Com outros salários, com outro nível de vida, talvez. Assim, obviamente não! E não me venham com a falácia das bolsas, que um Estado quase falido não vai pagar logo que passem as eleições. É só olhar para a história de 2005 a 2009 para perceber que estamos nas antípodas da seriedade e no terreno do mais rudimentar marketing político.
3. O que os outros fizeram deve servir-nos para aprender e integrar o nosso processo de decisão. Não temos que inventar a roda, mas não temos que decidir porque os outros fizeram. Chega de servilismos à Europa e à OCDE. Aqui, devemos fazer em cada momento o que é adequado à nossa realidade e à nossa cultura. Mas, sobretudo, não mintam. Quem disse que a maioria dos países da Europa já mantém os jovens na escola até aos 18 anos? Na Europa a 27 só é assim em cinco países (Alemanha, Polónia, Bélgica, Holanda e Hungria). Os outros 22 libertam os jovens da obrigatoriedade do ensino aos 16 anos, ou antes. A Áustria, a Dinamarca, a Suécia e a Finlândia, que não são propriamente atrasados, pertencem a esse grupo e têm uma escolaridade obrigatória de nove anos.
Por ser obrigatória, a escolaridade não é sinónimo de mais e melhor educação. Se o interesse for percepcionado e o desejo de aprender for efectivo, não é necessária a obrigatoriedade. Os jovens procurarão livremente mais formação. Mas tal não acontecerá enquanto os longos percursos de escolaridade desembocarem no desemprego ou servirem, tão-só, para alimentar os call centers, que acolhem actualmente 50 mil licenciados ou universitários, a 500 euros de salário, mês sim, mês não.
Isto é bem verdade José Miguel Silva! E como dói! E que pena ninguém ligar patavina ao assunto. Os portugueses, com tão parco poder de compra, têm de desembolsar fortunas pelos clássicos – os tais que os “agentes” culturais, em clima de propalada democratização da cultura, dizem ser obrigatórios em qualquer biblioteca; os ingleses, ou os franceses, ou os espanhóis (e suspeito que outros povos europeus também), esses, com salários bem superiores aos nossos, podem adquirir os clássicos (dos mais obscuros aos mais difundidos) ao preço de uma tosta mista + meia de leite. Porque existem a Penguin Popular Classics (sem medo à palavra “popular”), a Wordsworth Classics, a Oxford Classics, a Gallimard, a Folio, a Garnier-Flammarion, a Cátedra, a Clásicos Castalia, a Collección Austral, etc., etc. O mais parecido que tivemos foram os Clássicos de bolso das Publicações Europa-América. E quer-me parecer que em Portugal nunca ninguém prestou a devida homenagem a essa colecção, onde, mal ou bem, se traduziu quase tudo, e cujos livros eram vendidos a preços acessíveis. Infelizmente, a nossa “elite” literária, do alto da sua pompa, elegeu-a durante décadas como um aleijão editorial onde era de bom-tom dar umas marretadas. Ou era porque as traduções não partiam do original mas eram em segunda e terceira mão, ou porque tinham muitas gralhas, ou porque lhes faltavam introduções competentes e “contextualizadoras”, e outras queixinhas parecidas. Certa vez um certo alfarrabista disse-me, com um esgar de desdém: “aqui não vendemos edições populares”…
À indústria livreira irá suceder a mesmíssima coisa que aconteceu no mercado discográfico. No dia em que se tornar economicamente vantajoso “sacar” livros da net e imprimi-los em casa…
Ainda assim, é preciso notar que o mercado em Portugal dificilmente pode ter preços equivalentes a outros mercados de países maiores. É uma questão de custo que se resume no coeficiente: custo total/nº de exemplares = custo por unidade.
O Miguel, que tem experiência na área editorial e de vendas, saberá que é assim. Saberá que, por exemplo, muitas vezes é o lucro alcançado pelos Best Sellers que permite que outras obras menos vendáveis vejam a luz das montras.
A única forma que vislumbro para resolver esta questão passa pelo eterno subsídio estatal. Se ficarmos à espera de mecenatos empresariais, bem podemos esperar sentados e tranquilos a (re)ler o que entretanto fomos adquirindo.
Num país onde o acesso à cultura continua a ser um privilégio de classe, é natural que todos os seus arredores tendam a gerar fenómenos de snobismo parolo. São as giríssimas elites portuguesas, sempre tão cómicas.
Eu sei que as baixas tiragens não permitem preços módicos, Quim, e por isso não deito a culpa aos editores; responsabilidades maiores têm os livreiros e os meios de comunicação social, que só promovem o lixo. É ver a qualidade dos nossos suplementos culturais, e a nesga que dedicam aos livros. E claro que o estado e as autarquias tinham obrigação de financiar editoras e edições que colmatassem as lacunas do mercado, já que se fartam de subsidiar empreendimentos de mérito nenhum. Mas um chafariz dá mais votos do que uma edição dos Ensaios de Montaigne, e por aí se vê como a culpa desta miséria cultural não se detém nos políticos nem nos ditos agentes culturais, pois é de todos, desde os ministérios da cultura e da educação aos leitores e não-leitores, passando pelos professores, os criadores de cogumelos, os dentistas e os desdentados e os apanha-bolas, e acabando nos enterrados no cemitério dos prazeres.